Eu lembro que na pré-escola havia um menino que aterrorizava todos os colegas de classe. Eu devia ter uns seis anos, e lembro do medo que todos tinham daquele que foi o primeiro valentão que conhecemos. Felizmente ele não encrencou com ninguém em especial, e acho que depois de algumas semanas ele acalmou, pois não tenho mais qualquer lembrança dele. Já na adolescência por dois anos seguidos estudei com garotos com quem se deu o oposto – eles eram alvos preferenciais de zombaria dos colegas. No primeiro ano entrei na “brincadeira”, e cheguei a fazer piadas com um deles; mas no seguinte, talvez por estar mais velho, percebi que aquilo era um pouco cruel e me abstive de provocar o rapaz. Sentia-me realmente mal por ele.

Poucos anos depois um deles teve um surto no bairro em que morava, precisando ser internado. Até hoje não sei se o que ele sofreu na classe foi causa ou consequência de sua condição, mas um estudo que acaba de ser publicado mostra que o bullying tem impactos reais e de longo prazo na vida das pessoas.

A pequisa acompanhou por cinquenta anos praticamente todos cidadãos do Reino Unido nascidos durante uma semana específica de 1958, totalizando 17.638 participantes. Apesar do termo bullying ter se tornado moda, e por isso ter perdido um pouco sua força, naquela época os números já eram altos: 28% das crianças sofriam-no ocasionalmente, e 15% frequentemente.

Essas pessoas foram reavaliadas ao longo da vida; com 23 e 50 anos foram feitas avaliações sobre sofrimento psicológico, e aos 45 anos especificamente sobre doenças mentais. Agora, examinando a reunião de dados, os cientistas comprovaram que décadas depois as consequências ainda estavam presentes: não só as pessoas que sofreram bullying na infância apresentavam 50% mais sofrimento aos tanto aos 23 como as 50 anos de idade, como aos 45 a incidência de depressão e “suicidalidade” (ideias, tentativas e comportamento suicidas) eram duas vezes maiores. Menor qualidade de vida, rede social mais precária, mais desemprego e dificuldades financeiras eram outros dos problemas encontrados.

Esses números eram semelhantes aos problemas trazidos por ser colocado num orfanato quando pequeno, apenas para se ter uma noção do impacto psicológico que pode ocorrer.

A turma que critica os excessos do politicamente correto alega que “sempre foi zoado na escola e nunca se matou por isso”, queixando-se de que “agora tudo é bullying”. Não é. Bullying não é uma brincadeira à toa, pelas quais todos passam vez ou outra. É, antes, uma situação de cerco, extremamente angustiante para quem sofre, cujos resultados, vemos agora, vão muito além da infância. E o valentão (bully) que o pratica normalmente não é um psicopata-mirim, mas uma criança que também está em situação de vulnerabilidade psíquica, da mesma forma que as vítimas preferenciais.

Estar atento ao bullying e coibi-lo, portanto, é um dever moral. Por si só e por suas consequências.

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Takizawa R, Maughan B, & Arseneault L (2014). Adult Health Outcomes of Childhood Bullying Victimization: Evidence From a Five-Decade Longitudinal British Birth Cohort. The American journal of psychiatry PMID: 24743774