Vamos falar de mentiras que parecem verdades. A história de que o bolsa família seria cancelado – ou que havia um bônus de dia das mães na conta – espalhou-se como fogo há poucos dias, levando a uma acorrida da população às agências da Caixa Econômica Federal (CEF), temerosa com o fim do benefício (ou, em menor quantidade de iludidos, em busca de seu bônus). Agora que a hipótese de ação orquestrada da oposição perdeu força, vale a pena analisar o evento à luz da psicologia dos boatos, o que pode ajudar a entender – para além das teorias conspiratórias – o que ocorreu.

Os boatos costumam atravessar três etapas para atingir seu pico: nascimento, avaliação e disseminação. Normalmente eles nascem em ambientes prenhes de ansiedade e incerteza, sobretudo diante de dúvidas diante de eventos inexplicados. Nosso cérebro não suporta situações ambíguas, questões sem resposta, e por isso vive sempre à procura explicações. Os boatos fornecem uma razão, mais ou menos lógica, para eventos inexplicados, reduzindo esse desconforto cognitivo. Assim, quando algumas pessoas perceberam que haviam recebido o dinheiro do Bolsa Família antecipadamente, sem motivo conhecido, surgiu esse estado de dúvida propício à gênese dos rumores.

Na fase seguinte, de avaliação, as pessoas julgam a verossimilhança do que está sendo dito. Existe muito mais chance de passarem a falsa informação adiante se ela parecer crível, se tiver sentido. Essa avaliação depende das ideias mais comuns na nossa mente – a chamada disponibilidade cognitiva. Assim, não espanta que o boato do cancelamento tenha superado o do bônus: já que todo mundo está menos acostumado a ser bem tratado pelos políticos do que o contrário, a explicação do prejuízo imposto pelo governo encontrou muito mais eco na população do que a história de um presente de dia das mães. Acabou sendo bem mais difundida.

E por fim há a fase da disseminação. A essa altura o trabalho do rumor ficou fácil – a situação é ambígua, inesperada e sem explicação, e de repente começa a circular uma história que parece fazer sentido e por isso mesmo está sendo passada para frente. A partir daí o boato só faz ganhar força, primeiro porque de tanto ser repetido vai ganhando ares de verdade – quando as pessoas ouvem a história pela enésima vez acabam acreditando nela. E além disso as versões vão sendo aprimoradas – à medida que circulam de boca em boca vão perdendo aspectos mais estranhos e ganhando detalhes que acrescentam credibilidade.

Invocando o princípio de que a explicação mais simples tende a ser verdadeira, acho que esse cenário é bem mais provável do que imaginar que a oposição, que mal se articula para contrapor o governo, se orquestrar para contratar centrais de telemarketing e espalhar os boatos.

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DiFonzo, N., Bordia, P., & Rosnow, R. (1994). Reining in rumors Organizational Dynamics, 23 (1), 47-62 DOI: 10.1016/0090-2616(94)90087-6