Quero convidar você para fazer um exercício de imaginação hoje. É simples, vale a pena tentar.

Imagine que você tem um colega cujo comportamento tem mudado recentemente. Nos últimos meses ele vem ficando mais calado, não tem interagido muito com a equipe. Há algumas semanas está irritado, discutiu com o chefe de forma ríspida como nunca tinha feito antes e bateu boca com outro colega. Você o viu chorando no banheiro mais de uma vez, mas ele desconversou. Nos últimos dois dias ele não apareceu, e você descobriu que ele procurou atendimento e foi diagnosticado com depressão. Até que os medicamentos façam efeito o médico recomendou um afastamento por duas semanas. Agora você irá mandar uma mensagem para ele. O que recomendará?

a) Procure ficar isolado em sua casa e evite o contato social o máximo possível;

b) Ignore a recomendação médica e volte para o trabalho imediatamente que você melhora;

c) Cerque-se de gente que você gosta, e se possível tente se divertir – saia com amigos ou viaje uns dias com a família.

Aposto que você escolhe a alternativa c. Agora, imaginando que esse amigo não seja um eremita digital, você acha possível que, mesmo enfrentando a depressão, esses momentos em que ele está tentando se divertir sejam registrados e acabem parando numa rede social? Eu acho mais que possível – acho provável.

Fim do exercício de imaginação. Corta para a realidade distópica de nossos dias em que o governo Trump quer monitorar as redes sociais das pessoas com benefícios por deficiências para verificar se elas não estão mentindo quanto a ser deficientes.

A simulação de doença para auferir benefícios financeiros é um problema no mundo todo. Um estudo americano encontrou 30% de exagero nos sintomas ou simulação em perícias neuropsicológicas para atestar incapacidades, por exemplo. Mas acreditar que a investigação das postagens em redes sociais é um instrumento para sanar o problema demonstra apenas ignorância – tanto do funcionamento das deficiências como do funcionamento das redes sociais.

Se você participou do nosso exercício mental no início do artigo compreendeu muito bem que a pessoa pode estar, em determinados momentos, incapaz para reassumir alguns aspectos da vida que demandem mais de sua capacidade – seja trabalhar, exercer cuidados a terceiros, tomar decisões complexas – e ainda assim ser capaz de se divertir. O que vale para a depressão vale para qualquer deficiência – ter uma dificuldade que faça jus a um benefício não significa ter que ficar isolado da vida social. Nem ser proibido de participar da comunidade eletrônica, com os ônus e bônus de tal inserção.

Além disso, basta passar os olhos pelas redes sociais de qualquer pessoa – tenha ou não deficiência – para verificar que a gente só posta as vitórias. Os pais não divulgam as fraldas sujas nem as idas à farmácia de madrugada, mas apenas as crianças arrumadas e pais sorridentes. Quem tem depressão não irá aparecer chorando no chuveiro para os familiares não verem, mas no jantar em que conseguiu sorrir para não estragar a festa.

Embora ainda não tenha conhecimento de uma política similar no Brasil, não é raro ouvir comentários levantando dúvida sobre a real doença de alguém visto se divertindo. Por isso, se a moda pegar nos EUA não duvido que ecoe por aqui – daí já me adiantar nas críticas.

Digo e repito: políticas de monitoramento de redes sociais de quem tem benefícios por deficiência é um desperdício de tempo e recursos. Isso só aumenta o estigma sobre quem já padece com a invisibilidade de seus problemas e não ajuda a identificar simuladores contumazes, porque esses são profissionais do engodo que não se deixarão flagrar com expediente tão pueril.

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Leitura mental

Por falar em monitorar o comportamento alheio, a editora Intrínseca lançou esse ano o livro Boy Erased – Uma verdade anulada, de Garrard Conley. O autor conta a história de sua participação num programa de cura homossexual, ao qual se submeteu voluntariamente na tentativa de manter seus vínculos com a família e a comunidade a que pertencia. Claro que o programa torna-se para ele muito mais uma tortura do que uma cura – já que a homossexualidade não é uma doença para ser extirpada de alguém, como hoje poucos discordam. São esses (preocupantes) poucos quem mais poderia se beneficiar do exercício de empatia que é acompanhar a história do autor.