“Aos dezesseis anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos contra dois e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris”.

Assim começa o romance A lua vem da Ásia, de um dos únicos escritores surrealistas que tivemos no Brasil, Campos de Carvalho. Parece que a maioria dos adolescentes brasileiros está cometendo o mesmo crime, numa verdadeira chacina lógica.

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA, na sigla em inglês), que tradicionalmente já humilha o país ao comparar as habilidades linguísticas e matemáticas de estudantes ao redor do globo, fez agora uma rodada testando a capacidade de resolver problemas complexos usando o raciocínio lógico. Mais uma vez a prova colocou o Brasil na retaguarda, amargando a trigésima oitava posição entre 44 países. Dos seis graus de dificuldade do teste quase metade dos nossos alunos não conseguiu passar dos dois primeiros níveis.

A gravidade da situação, de meu ponto de vista, não vem apenas de nosso orgulho ferido. O problema é que a prova era baseada em questões práticas do mundo real, como utilizar equipamentos eletrônicos ou encontrar a menor distância entre dois pontos. E num mundo cada vez mais abstrato, dominado pela tecnologia, a dificuldade de achar saídas não óbvias para obstáculos pode ser uma desvantagem competitiva enorme – se não atuarmos especificamente nesse aspecto – além de ensinar o idioma e matemática – estaremos criando uma geração ainda mais defasada no cenário internacional do que já estamos.

Uma das alternativas para enfrentar o problema é adotar a utilização de jogos de tabuleiro em sala de aula. Há diversas escolas indo nessa linha, mas sem uma articulação do currículo oficial até onde eu saiba. Os jogos de tabuleiro são uma ferramenta bastante eficaz para treinar concentração, tomada de decisão, raciocínio lógico e planejamento executivo. Embora já não sejam uma moda tão forte como há algumas décadas existem iniciativas interessantes, como o site Ilha do Tabuleiro, ou a publicação de livros como “O livro dos 10 melhores jogos de todos os tempos”, da especialista em jogos Àngels Navarro, lançado esse ano no Brasil. Trata-se praticamente de um livro-objeto, trazendo não só informações interessantes sobre dez jogos clássicos, como também as regras e os próprios tabuleiros e peças necessárias para jogar cada um deles.

A capacidade de resolver problemas é uma habilidade fundamental em qualquer área de atuação humana. No mundo globalizado, onde não haverá espaço para o jeitinho brasileiro, é importante que aprendamos logo como ensinar as crianças a pensar.