A morte é um tema que vem me fazendo pensar bastante. Devem ser os cabelos embranquecendo no espelho. Mas a polêmica da fosfoetanolamina reacendeu minhas inquietações sobre a questão, me fazendo sacar da prateleira o livro Mortais – Nós, a medicina e o que realmente importa no final, do médico e (excelente) escritor Atul Gawande, lançado esse ano pela editora Objetiva.

A tese de Gawande é simples e difícil de refutar: a Medicina progressivamente afastou a morte de nós, até o ponto em que passamos a acreditar que não vamos morrer. Esse sempre foi um problema para os seres humanos auto-conscientes; saber que vamos morrer é uma fonte de angústia tão grande que procuramos nem pensar nisso. Tanto que tratamos a morte como uma possibilidade (dizemos “É possível que eu morra”) quando na verdade é uma certeza, trata-se só de uma questão de tempo. Com o avanço da Medicina nós reduzimos as mortes por doenças infecciosas, depois melhoramos o prognóstico nas doenças cérebro-vasculares, e agora nos debatemos contra as doenças mais comuns na velhice, como Alzheimer e o câncer. E conforme controlamos os males da saúde e esticamos a vida, vamos evitando a morte. Chegamos a esquecer que a morte não precisa da doença – como disse Montaigne, “Você não está morrendo porque está doente; você está morrendo porque está vivo. A morte mata muito bem sem o auxílio da doença”.

O problema é que somos instintivamente apegados à sobrevivência e por isso nos agarramos a qualquer esperança que exista – se nos oferecem um tratamento que tenha uma chance de cem de prolongar a vida por alguns meses, mais do que depressa optamos por ele. Mesmo que os efeitos colaterais roubem toda qualidade dessa sobrevida que ganhamos. Mesmo que seja experimental. Até mesmo se nos disserem que corremos o risco de ficar tetraplégicos, cegos, surdos e mudos, o primeiro impulso é aceitar. É preciso parar para pensar se vale a pena; o default é tentar. Mas trata-se de um pacto faustiano (com perdão do lugar-comum), no qual entregamos nossa alma e perdemos a essência do que nos faz humanos em troca de um pouco mais de tempo na Terra. Esse impulso de vida explica em parte a polêmica da fosfoetanolamida, já que diante da promessa – falsa ou não, tanto faz – de cura, a racionalidade fica em segundo plano. Minha crítica não é às pessoas que querem usar a pílula – é uma decisão individual e merecedora de respeito – minha crítica é à justiça, que deveria se manter nos limites da razão.

Mas a ilusão está acabando. Olhando melhor como vimos tratando os doentes terminais nas enfermarias estamos nos damos conta que a Medicina moderna nos afastou do que realmente importa. A autonomia mesmo diante do envelhecimento; a dignidade ainda que à beira da morte; o respeito aos desejos, incluindo o de não tentar mais nenhum tratamento penoso. Isso vinha sendo sacrificado em prol de se tentar medidas heroicas para mínimos ganhos de tempo. Gawande mostra que a ascensão dos cuidados paliativos, que se focam na qualidade de vida muito mais do que na cura, é sinal de que a ficha caiu. Ainda que com atraso, enfim estamos percebendo que não adianta somar anos à vida e ao mesmo tempo subtrair vida dos anos.