Em poucos segundos eu serei capaz de ler seus pensamentos. Imagine um sujeito que não dormiu direito à noite, acordou mais cedo para ir ao trabalho e mesmo assim pegou um trânsito intenso, foi cobrado pelo chefe o dia inteiro, levou mais de duas horas para chegar em casa à noite e descobriu que o vizinho parou na frente da sua garagem, impedindo-o de estacionar. Nessa hora a raiva faz seu rosto ficar vermelho e a pressão subir e a cabeça latejar. Se você pudesse oferecer um conselho para ele, o que diria? Como ele poderia se livrar dessa raiva e desse estresse? Aposto que você pensou em algo como “extravasar”, “por para fora”, talvez socar um travesseiro ou um saco de boxe, ou mesmo praticar alguma luta para não deixar a pressão “acumular”. Acertei?

Infelizmente esse é um dos mitos mais populares – e prejudiciais – no que diz respeito ao manejo do estresse. Nessa semana, por exemplo, o técnico dos Santos, Oswaldo Oliveira, foi expulso de campo pela segunda vez em três semanas, de tão intensas têm sido ruas reclamações com os árbitro. Dando mais força para o mito ele disse que o “médico falou para eu não guardar, para não somatizar, que seria pior. Então eu extravaso”.

Essa história remente à Grécia Antiga e ao conceito de catarse, proposto por Aristóteles e mais tarde incorporado à teoria freudiana. De acordo com essa ideia, liberar sentimentos ruins seria uma forma de não permitir que eles se acumulassem dentro de nós, trazendo prejuízos. A metáfora dos humores, na antiguidade, e posteriormente dos mecanismos a vapor, na era industrial, eram perfeitas para ilustrar que acúmulos precisavam ser libertados.

Pena que não funciona.

Dezenas de estudos já mostraram que, nas mais diversas situações, gritar, bater, xingar ou extravasar de qualquer forma não alivia a raiva e ainda por cima pode aumentar a agressividade. “Mas eu já fiz isso e a raiva passou”, você está pensando agora, certo? Só que a raiva passa de qualquer jeito. Como ela é uma emoção secundária à reação transitória que experimentamos diante de uma situação estressante (que julgamos injusta), quando a adrenalina baixa – o que sempre acontece em alguns minutos – a raiva diminui, e somos levados a crer que foi por causa da “catarse”. Mas não foi – ao dar murros numa almofada ou gritos a esmo, nós estamos mantendo o corpo em estado de tensão, prolongando a reação de luta-ou-fuga que caracteriza o estresse, o que pode aumentar a angústia e a agressividade. Não fazer absolutamente nada é melhor do que tentar algum processo catártico, usando o bom e velho contar até dez.

Isso não quer dizer que devemos fingir que não ficamos com raiva ou “engolir os sapos”. Reconhecer o estresse e sua fonte, mas tentar lidar com eles sem explosões, é uma forma de encontrar o meio termo assertivo entre a passividade e a agressividade. A sabedoria aristotélica, que propunha caminho do meio, não estava tão longe da verdade afinal.

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Brad J. Bushman (2002). Does Venting Anger Feed or Extinguish the Flame? Catharsis, Rumination, Distraction, Anger, and Aggressive Responding Pers Soc Psychol Bull, 28 (6), 724-731 DOI: 10.1177/0146167202289002