fonte: pixabay

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Estava assistindo recentemente no Netflix um dos shows do comediante Louis C. K.. Se você nunca o viu em ação vale a pena conhecê-lo – como a maioria dos bons humoristas ele tem uma enorme capacidade de nos confrontar com alguns aspectos bem desagradáveis da nossa natureza, fazendo-nos rir de nós mesmos.

Nessa apresentação ele passa um bom tempo refletindo sobre a criação de filhos. Pai separado de duas meninas, de sete e três anos à época, não lhe faltam exemplos de situações tão difíceis como hilárias. Perto do fim do show ele conta a história de um dia em que brigou com a filha menor – e tenta se justificar relatando uma sequência de provocações, birras e acidentes domésticos de chorar de rir. “Mas com uma criança de três anos” ele conclui “A culpa é sempre sua”. A gente faz papel de idiota quando as agarramos pelos braços e gritamos: “Você não está entendendo?”. “Não, pai, eu tenho três anos, não desenvolvi meu cérebro ainda. Espere uns anos”.

Como em toda comédia digna fui obrigado a pensar. E me lembrei de momentos em que perdi a paciência com meus próprios filhos. Quando cansado, irritado, furioso até, me deixei levar pela raiva, agindo de uma forma em que já não dava para dizer se estava disciplinando ou descontando.

Mas Louis C. K. está certo. Não se educa dessa maneira.

Um grande estudo feito pela Universidade de Pittsburgh acompanhando quase mil famílias, com pai, mãe e filhos com 13 ou 14 anos, mostrou que existe um círculo vicioso de hostilidade. Os problemas de comportamento dos filhos levam os pais a usar mais punições verbais inadequadas (gritos, ameaças, ofensas, humilhações). O uso dessas punições, contudo, não disciplina de fato – ao contrário, elas causam mais problemas comportamentais, começando tudo de novo. Hostilidade gerando hostilidade. Além disso o risco de o filho submetido a punições verbais desenvolver um quadro depressivo também aumenta.

A pergunta que fica é: a quem cabe quebrar esse círculo vicioso? (Dica: o autocontrole melhora com o tempo). A resposta é óbvia. Não tem sentido esperar que os filhos com problemas de disciplina melhorem para então os pais pararem de gritar com eles. A iniciativa cabe aos pais.

Não estou dizendo que é fácil, nem que será sempre possível manter o sangue frio. Mas é fundamental ter isso como objetivo. A alternativa é gritar cada vez mais alto por causa de problemas cada vez maiores. Até que todos fiquem surdos.

ResearchBlogging.org
Wang, M., & Kenny, S. (2014). Longitudinal Links Between Fathers’ and Mothers’ Harsh Verbal Discipline and Adolescents’ Conduct Problems and Depressive Symptoms Child Development, 85 (3), 908-923 DOI: 10.1111/cdev.12143