Imagine um livro que fosse no formato de um pequeno e flexível computador, com tela no lugar de páginas e uma capa de plástico. Agora imagine que seu conteúdo abrangesse todo o conhecimento disponível, e que apesar de alguns funcionários e colaboradores fixos dessa enciclopédia, qualquer pessoa pudesse contribuir para os verbetes, atualizados por meio de uma rede. Não, não estamos falando de iPads e Wikipedias. Estamos falando de um tempo em que isso era ficção cientítica; das boas.

No final da década de 70 o escritor Douglas Adams escreveu a série “Guia do Mochileiro das Galáxias”. Tal guia tinha na capa o slogan “Não entre em pânico!”, e sempre trazia conselhos aos personagens envolvidos nas mais improváveis situações, que se não eram úteis eram ao menos bastante divertidos. Concebida como trilogia, a série chegou a cinco livros escritos por Adams, falecido em 2001. Agora, após quase vinte anos da publicação do último livro, a viúva de Adams autorizou Eoin Colfer (autor dos livros da série Artemis Fowl) a escrever uma continuação, publicada no Brasil em parceria pela Record e a Arqueiro (selo literário da Sextante) com o título “E tem outra coisa…”.

Colfer resgata os personagens e mantém o ritmo tresloucado da série, recheando a trama de menções aos livros anteriores. Como neles, a história é entremeada por transcrições literais dos verbetes do Guia, e apesar de o autor abusar um pouco deles não chega a comprometer o desenrolar da história. Embora seja um livro de humor, sem pretensões proféticas, creio que ele acerte numa previsão quando um dos personagens diz: “Li sobre isso numa coisa que tem páginas. Um negócio antigo, onde você vira páginas”.

Acho que é esse o destino dos livros. Note que no trecho acima fica claro que eles não desapareceram totalmente; estão por aí, o personagem até já leu um, mas não são mais a fonte primária de informação.

Sustenta essa perspectiva uma pesquisa realizada pela Universidade Johaness Gütemberg de Mainz, Alemanha, em parceria com uma empresa de marketing daquele país. Vinte voluntários com média de idade de 26 anos e dez com média de 64 anos foram convidados a ler nove textos, três num iPad, três num Kindle (e-book da Amazon) e três em papel, com diferentes níveis de complexidade. Além de testes de compreensão e fixação de conteúdos, os sujeitos foram submetidos a eletroencefalograma (EEG) e rastreamento de movimento dos olhos.

Embora quase todos dissessem, numa avaliação subjetiva, que preferiam ler em papel, não houve diferença quanto à compreensão e fixação das informações em qualquer dos suportes, em ambas faixas etárias. O EEG mediu as variações de ondas Theta, que refletem esforço cognitivo ou estresse, e surpreendentemente houve menos variação na leitura do iPad, indicando menor esforço cognitivo nesta tarefa. O movimento dos olhos – que tende a ser mais lento em leituras mais trabalhosas – não mostrou diferenças entre aparelhos ou grupos. Outra diferença inesperada foi que, nos mais idosos, a leitura em tablet foi mais rápida do que em e-book ou papel, sem prejuízo de entendimento.

Não encontrei o estudo publicado numa revista científica, e deve-se ter em mente que, embora realizado por uma equipe universitária séria, o patrocinador é dono da maior plataforma de livros eletrônicos alemã. Feitas essas ressalvas, contudo, creio mesmo que a leitura não seja prejudicada pelo meio em que é feita, sejam tablets, e-books ou papel. Sendo só uma questão de costume acho que, diante das facilidades que os meios eletrônicos apresentam, logo os livros serão de fato “um negócio antigo”. Mas o seu cérebro não notará diferença, por isso, “Não entre em pânico!”.

Relatório da pesquisa (em alemão)

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