O Dia Internacional da Mulher sempre me atrai para o tema. Já escrevi em outra ocasião que discordo de quem acha a data dispensável, como se a mulher já tivesse seu lugar garantido na sociedade, em pé de igualdade com o homem. Não tem, e ainda demorará a ter. Sim, sim, é óbvio que homens e mulheres são diferentes e terão sempre papéis complementares – não idênticos – em qualquer grupamento humano; mas igualdade de tratamento, respeito, direitos, isso é o mínimo – e ainda não chegamos lá.

Mas falando em diferenças, pesquisas recentes sobre a como o estresse afeta o coração feminino trazem resultados preocupantes. Voluntários com problemas cardíacos que foram submetidos a testes de estresse mental e recordações de situações angustiantes, por exemplo, reagiram de forma distinta de acordo com o gênero: os homens tiveram aumento de pressão arterial e frequência cardíaca, mas as mulheres tiveram aumento da agregação plaquetária, menor fluxo de sangue e mais isquemia cardíaca – ou seja muito mais risco de infarto. Além disso, apresentaram mais emoções negativas do que os homens durante o processo – seria esse componente emocional causa das alterações cardiovasculares ou consequência delas?

Embora não seja possível saber se a depressão vem antes do infarto ou vice-versa (ou se ambos estão ligados a um fator comum, o que é mais provável), o fato é que outro estudo mostrou que a presença de sintomas depressivos mais do que dobram o risco de mulheres jovens enfartarem. Abaixo de 55 anos, se sofrem de depressão moderada, o risco de ter um infarto, de precisar de angiografia ou de morrer é 2,17 vezes maior do que mulheres sem esse problema (e 2,45 vezes maior se a depressão é grave). E não para por aí. Como se não bastasse, as mulheres ficam mais estressadas também depois de um infarto – estudando pacientes sobreviventes de ataques cardíacos, pesquisadores descobriram que as mulheres demoram mais do que os homens para se recuperar, apresentando ao mesmo tempo níveis significativamente mais elevados de estresse – novamente, uma associação que não parece ser mero acaso.

Arrisco um palpite do porquê as mulheres vêm ficando tão estressadas. Não é uma teoria científica, mas creio não ser leviano afirmar que há nelas maior tendência ao cuidado – da prole, da casa, do marido. Seja uma “natureza” ou um “construto social”, o fato é que tal zelo pode facilmente degringolar para comportamentos nada saudáveis. Pegar para si problemas dos outros; preocupar-se antecipadamente por situações (que talvez nem ocorram); tentar resolver dificuldades mentalmente; centralizar tudo e não delegar nada – tais atitudes, distorções tóxicas do “cuidado”, pairam como sombra no universo feminino e são altamente desgastantes. Isso para não entrar na renhida questão da dupla jornada.

Ninguém minimamente bem intencionado ainda considera as mulheres como “sexo frágil”. Mas na ânsia por ser forte é importante lembrar que fragilidades existem e podem ser perigosas.

ResearchBlogging.org
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