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O drama de Andreas von Richthofen é uma história tristemente comum no caso dos usuários de crack. É tão corriqueira que só virou notícia pela conjunção de dois fatores: um surto psicótico e um sobrenome conhecido.

No mundo estima-se existirem mais de dez milhões de usuários de crack. A maioria está na luta contra a dependência, tropeçando e levantando, na tentativa de conciliar uma vida normal com um vício potencialmente tão devastador. Essa maioria, contudo, é quem sustenta em grande parte as cracolândias – aproveitando-se da área de livre comércio da droga que ali se estabelece, frequentam-nas apenas para adquirir as pedras nas recaídas – frequentes ou não. São a população flutuante, digamos assim.

Richthofen aparentemente fazia parte dessa massa. Frequentava o centro de São Paulo para comprar drogas, segundo as informações, mas isso não o impediu de graduar-se numa universidade tão concorrida como a USP. O banco de teses da universidade mostra que seu trabalho de doutorado foi publicado no final de 2015, há menos de dois anos portanto. Como é pouco provável que ele tenha esperado obter o título de doutor para então tornar-se dependente, pode-se inferir que conseguiu dar conta das grandes demandas intelectuais de uma pós-graduação stricto sensu mesmo com o uso do crack. Assim como os milhões de dependentes mundo afora.

Mesmo o fato de ter desenvolvido um quadro psicótico não é anômalo – não é nem um pouco raro que o uso da cocaína, seja inalada, seja em pedra, leve ao desenvolvimento de pensamentos delirantes, desconectando os sujeitos da realidade nos chamados quadros psicóticos induzidos por drogas. A polícia está cansada de encontrar dependentes nessas condições, diuturnamente levando-os a pronto-socorros para serem devidamente medicados. Por si só isso também não seria notícia.

O interesse no caso, portanto, só pode ser atribuído ao sobrenome inscrito na história policial brasileira. Richthofen é uma marca conhecida, cuja menção por si só desperta o interesse. Qualquer nova ocorrência policial envolvendo o sobrenome tem tudo para ganhar as manchetes. Mas o fato é que, embora trágico, seu drama atual é tão igual a tantos outros que não estaríamos falando disso se não fosse por sua irmã.

Torço por ele, como por todos os que lutam contra o vício. E espero que a notícia ao menos sirva para mostrar que a questão do crack vai muito, muito além das cracolândias.