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Eu estava no pré-primário, devia ter uns seis ou sete anos, quando descobri que a homeopatia envolvia uma espécie de fé. Estava lá tomando uma pílula de amido de um frasquinho que carregava comigo quando um amigo perguntou o que era. “Remédio” disse eu “De homeopatia”. “Ah, você acredita?” perguntou ele para meu espanto. “Ué, não tem o que acreditar, é remédio”. Não lembro como terminou aquela inocente conversa, mas sem saber resumíamos ali no pátio da Fundação Bradesco os elementos de um dos grandes debates nas ciências da saúde.

Mais de trinta anos depois ainda estamos tentando estabelecer um diálogo entre os defensores e os detratores da medicina alternativa mais praticada no mundo. De um lado a comunidade científica, de maneira praticamente unânime, condenando a prática como empulhação. Antes que se diga ser um lobby das indústrias farmacêuticas é bom lembrar que não são apenas os cientistas sérios na área da saúde que têm essa postura. As bases da homeopatia ferem tantos princípios do funcionamento do mundo natural que físicos, químicos, biólogos, biomédicos e tantos outros também são veementes em sua condenação.

Do outro lado, sustentando a prática por mais de dois séculos, não estão os homeopatas. Sim, eles defendem que uma substância que causa determinado sintoma também é capaz de combatê-lo, desde que diluída quase infinitamente. A água (pura) que resulta da diluição traria uma espécie de memória, tendo efeitos terapêuticos. Mas não são eles que mantêm a prática viva – ninguém com o mínimo de raciocínio crítico engole essa balela. A homeopatia resiste diante do desmascaramento contínuo da ciência por força dos seus usuários – simplesmente porque as pessoas usam e vêem resultados. Se quiser fazer um experimento sociológico, sentindo o que é ser execrado publicamente, critique a homeopatia numa festa infantil. Aposto que em meio às ofensas pessoais e ataques à sua família você ouvirá coisas como “Curei a sinusite da Júlia com homeopatia”, “O Pedro nunca mais teve alergia” e assim por diante.

E assim o diálogo trava. Cientistas insistindo que a homeopatia não é diferente do placebo; pacientes batendo na tecla de que funciona.

Por isso a decisão da comissão federal de comércio dos Estados Unidos, de proibir os medicamentos homeopáticos de se venderem como tratamentos com eficácia comprovada, tem pouco impacto prático. Os frascos agora terão que avisar que “não existem evidências científicas sustentando os efeitos alegados”, e que “as afirmações da homeopatia são baseadas apensa em teorias dos anos 1700 que não são aceitas pela medicina moderna”. E daí? As pessoas já sabem disso, mas usam mesmo assim, porque quando “acreditam”, como disse meu amiguinho lá nos anos oitenta, obtêm resultados.

A diluição infinitesimal e a memória da água são histórias da carochinha? Sem dúvida. Os resultados não passam de efeito placebo? Com certeza. Mas o sucesso popular da homeopatia mostra que, em determinadas situações, dizer que algo tem efeito “igual a placebo” é menos uma crítica ao tratamento do que um elogio ao placebo.

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Férias para você, não para seu cérebro

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O post de hoje foi em grande parte inspirado pelo livro Cura, da jornalista científica Jo Marchant (Best Seller, 2016). Num contraponto perfeito ao livro da semana passada, que mostrava como a nossa mente é capaz de influenciar no adoecimento, Marchant investiga as mais recentes evidências científicas de que nossas crenças influenciam na cura. Sua escrita flui tão bem que quase não sabemos quando ela está contando uma história pessoal ou relatando uma pesquisa científica. Ninguém vence o câncer só por acreditar, nem se cresce um membro amputado pela força do pensamento, mas coisas como os efeitos biológicos da meditação ou o poder do placebo de alterar o funcionamento do cérebro mostram como a relação entre mente e corpo é inseparável. Às vezes para mal; mas às vezes para bem.