Já era hora de dar satisfação de como anda minha promessa de ano novo. Eu me comprometi com os leitores a dividir os sucessos e fracassos, na esperança de descobrir, ao longo do processo, o que nos ajuda a caminhar em direção à saúde e o que nos faz tropeçar. E como estamos?

Ao longo dos primeiros seis meses do ano chegamos a algumas conclusões: 1 – não existe uma dieta única que seja perfeita; 2 – a moda detox é uma grande bobagem; 3 – carboidratos simples e açúcares devem ser evitados independente do cardápio escolhido; 4 – dificultar o acesso a alimentos indesejáveis e facilitar o consumo de comidas saudáveis aumenta a chance de comer bem. Muito bem, mas será que descobrir tudo isso está mesmo me ajudando?

Eis que há poucos dias resolvi fazer um check up geral. Enquanto estava tranquilamente conversando com o colega radiologista que fazia meu ultrassom abdominal ele comentou, como se não fosse nada, que eu estava com um pouco de gordura hepática. Hã? Será possível? Logo esse ano, que resolvi caprichar na dieta. Gordura no fígado? Fiquei torcendo para ser só uma impressão, mas o laudo final do exame não deixava dúvida: esteatose hepática leve. Traduzindo do mediquês: gordura no fígado. De repente me sentia o próprio ganso, pronto para ser sacrificado e ter o fígado gorduroso transformado em foie gras. Os outros exames estavam em ordem, e tal resultado não chega a ser um problema ou um perigo para minha saúde, mas essa notícia foi uma grande decepção.

O que será que aconteceu?

Não sendo obeso, diabético nem alcoolista, o mais provável que essa gordura venha dos benditos carboidratos. Simplificando uma bioquímica de que já não me recordo bem, o consumo desse tipo de nutriente altamente calórico estimula o organismo a armazenar a energia extra na forma de gordura, que é fabricada no fígado e acaba se acumulando por ali (além de se acumular pelos outros órgãos – a famigerada gordura visceral). Mas de onde estão vindo esses carboidratos? Não estou prestando atenção à minha dieta? Aparentemente, não. Ou melhor: talvez esteja atento só aparentemente.

Quando temos comportamentos que, apesar de condenar, não conseguimos evitar, nossa mente encontra as mais varias maneiras de lidar com essa contradição. Entre as mais conhecidas estão os mecanismos de defesa, como ocorre com as pessoas que bebem, jogam ou exageram em qualquer coisa mas não admitem. São atitudes como minimização (“Não é nada demais, só um probleminha.”), racionalização (“Existe uma explicação totalmente aceitável para o que estou fazendo.”), negação (Não tem nada de mais acontecendo, vocês estão exagerando”), entre outras. Um caso recente pode ser ilustrativo: há poucas semanas comprei um bolo “para meus filhos” (racionalização). Nem eles nem minha esposa gostaram, mas mesmo assim em uma semana o bolo acabou. Como ele pode ter sumido? (Negação). Eu comi, é claro. Mas só um pedaço por dia (minimização). No fim devorei o bolo todo, me convencendo aos poucos que não estava fazendo nada de mais.

Como lidar com essa situação? O primeiro passo é trazê-la para a consciência, pois só quando admitimos que estamos nos enganando é possível desarmar essas armadilhas. E além disso, criar um diário alimentar pode ser uma boa estratégia: quando lemos numa fria e objetiva lista como está nosso comportamento fica mais difícil aceitar as desculpas esfarrapadas que somos tão talentosos para criar.cake-486874_1920

Fonte: pixabay