Conforme prometi vamos tentar descobrir um método para não cair nas esparrelas tão frequentes na internet hoje em dia. A bem da verdade, se a rede tornou mais fácil para essas bobagens se espalharem, ela não é sua causa – teorias conspiratórias já existiam muito antes – e além disso tornou mais fácil verificar a verdade. Muitas vezes um simples clique bastaria para descobrir que uma notícia é falsa – mas como dissemos no artigo da semana passada, quando recebemos uma (des)informação de dentro dos nossos círculos homogêneos de relacionamento, e que ainda por cima confirmam nossa visão de mundo, tendemos a acreditar sem questionar. Como tentar deter essa tendência?

Trato aqui no mesmo balaio dos boatos espontâneos, das mentiras mal intencionadas e das teorias da conspiração. Embora não sejam exatamente o mesmo fenômeno e apresentem particularidades, todos eles surgem em situações de interação social em que há uma sensação de desconfiança ou desconforto diante de algo inexplicado, mal explicado ou simplesmente difícil de entender. Explicações alternativas surgem então, pretendendo dar um sentido mais amplo, e quando elas fazem algum sentido e se encaixam em nosso modo de pensar, elas vingam e passam a ser disseminadas. Os boatos são mais simples, às vezes uma notícia só, enquanto as pretensas conspirações são sempre complexas, envolvendo grupos organizados secretamente, tentando usurpar o poder ou manipular as instituições em interesse próprio. Pesquisas americanas mostram que as pessoas acreditam nessas coisas independente da orientação política: liberais acham que a mídia é controlada pelas grandes corporações capitalistas, enquanto conservadores também acham que a mídia é controlada, mas pelos liberais e acadêmicos, por exemplo.

Mas uma das coisas que nos protege é a educação. Segundo a mesma pesquisa, 42% dos americanos sem ensino médio têm alta tendência a crer nessas teorias malucas, contra 23% dos que têm pós-graduação. Isso porque a forma de raciocinar sobre o que lemos tende a mudar conforme estudamos.

Mas qual o segredo?

A resposta pode estar num trabalho publicado ano passado, comparando calouros de psicologia com doutorandos e pós-doutorandos do mesmo curso quanto à habilidade para julgar a plausibilidade de argumentos. Eles foram apresentados a um texto sobre vício e tabagismo. As instruções eram claras: avaliar os argumentos baseado em sua consistência, sua construção e sua lógica, não nos conhecimentos sobre o tópico. Os cientistas apresentaram uma acurácia de 80% na detecção de argumentos implausíveis, significativamente mais do que os alunos (60%). Não por acaso, eles se ativeram mais à orientação de procurar inconsistências como contradição, raciocínio circular, falácias em geral (o que fizeram 40% do tempo) do que os estudantes (12%). Esses por sua vez confiaram muito mais na intuição – 43% do tempo (contra 27% dos cientistas).

Se parece simples, não é. Pessoas que acreditam em uma teoria conspiratória tendem a crer em outras, mesmo quando são contraditórias. Em 2012 foi publicado um trabalho mostrando que quanto mais os sujeitos acreditavam que o Bin Laden já estava morto quando os EUA invadiram sua residência, mais eles acreditavam que Bin Laden ainda deveria estar vivo. Claro que é uma contradição grosseria. Mas quando estamos muito convictos de uma coisa, simplesmente ignoramos as evidências em contrário, o que pode nos levar a cair nessas armadilhas.

Na prática, então, como se proteger das mentiras e boatos da internet? Vão aqui 4 dicas:

1 – Cheque antes de divulgar – um clique ou uma busca no google muitas vezes já desmascara a mentira;
2 – Duvide do que é improvável – a internet nos mostrou que o improvável muitas vezes acontece. Mas sempre que algo não for a regra, não for comum, desconfie;
3 – Pense um pouco – não precisa chegar ao nível do detalhe dos cientistas, mas veja se o argumento apresentado é mesmo consistente, se não gira em círculos ou simplesmente se contradiz; e por fim:
4 – Busque o contraditório – sempre que tiver uma opinião, tente entender as razões de quem discorda. De repente você está tão convicto de algo que nem se deu conta que está acreditando em mortos-vivos.

ResearchBlogging.org
Shermer, M. (2012). Conspiracy Contradictions Scientific American, 307 (3), 91-91 DOI: 10.1038/scientificamerican0912-91
von der Mühlen, S., Richter, T., Schmid, S., Schmidt, E., & Berthold, K. (2015). Judging the plausibility of arguments in scientific texts: a student–scientist comparison Thinking & Reasoning, 1-29 DOI: 10.1080/13546783.2015.1127289
Wood, M., Douglas, K., & Sutton, R. (2012). Dead and Alive: Beliefs in Contradictory Conspiracy Theories Social Psychological and Personality Science, 3 (6), 767-773 DOI: 10.1177/1948550611434786