Éramos uns dez jovens, eu talvez fosse o mais novo, perto de doze anos, conversando à noite nos fundos de um casarão em Araraquara, no interior de São Paulo. Como não poderia deixar de ser o assunto enveredou-se para o sobrenatural, cada um querendo contar sua experiência mais inexplicável ou relatar o caso assustador que ouvira de alguém. Medroso como sempre fui – até hoje fecho os olhos em filmes de terror – não aguentei por muito tempo aquela conversa e fui para o meio dos adultos. Entediado, resolvi pregar uma peça na turma. Amarrei uma linha escura num copo plástico, pedi para um cúmplice insuspeito (meu pai, no caso) discretamente colocá-lo no chão do quintal, sem chamar atenção, e  comecei a puxar a linha lentamente de dentro da sala. “Nossa, que estranho” comentou um dos garotos “Parecia que aquele copo estava andando”. Todos então se voltaram para o copo no momento em que ele se movia sozinho pelo chão. “O copo está andando!”, gritaram e saíram correndo para dentro de casa, derrubando cadeiras, atropelando os cachorros, para diversão dos adultos. A reação foi tão intensa que, no susto, estraguei a pegadinha perfeita tentando acalmar a molecada: “Sou eu, gente, calma! Sou eu puxando o copo”.

De fato é bastante comum que crianças e adolescente tenham medo do sobrenatural. As histórias de terror, as conversas sobre o além, são algumas das formas de entrar em contato com o tema e aos poucos perder o medo. Normalmente no fim da adolescência, ainda que sobre algum receio, as pessoas não temem mais fantasmas, mortos ou espíritos. Os mais ansiosos, contudo, propensos a fobias, podem persistir com um medo exagerado – que nunca confessarão, por vergonha de um medo tão associado à imaturidade.

No final do ano passado o médico e pesquisador Ricardo de Oliveira-Souza publicou o relato de uma série de casos do que chamou de fobia do sobrenatural. Pacientes cujo medo do além era tão exagerado que atrapalhava suas vidas de diversas maneiras. Um advogado casou-se com uma mulher que não amava só por medo de dormir sozinho no quarto – e por pior que estivesse o casamento não queria se separar para não ter que passar por isso. Um médico que ficava dias sem dormir se por acaso assistisse algum filme de terror. Uma garota que dizia temer as coisas sobrenaturais mesmo sem acreditar nelas. Uma senhora chegava a fazer xixi na cama por medo de ir ao banheiro à noite depois que o marido faleceu.

Os exemplos são emblemáticos do que se chama fobia: medos extremos, percebidos como exagerados pelos próprios pacientes, sem justificativa racional, mas que ainda assim tornam-se impossíveis de controlar, trazendo graves impactos negativos no dia-a-dia das pessoas. As fobias específicas, aquelas que têm objetos determinados – tempestades, altura, insetos – são velhas conhecidas da medicina. O mérito de Oliveira-Souza foi identificar que muitas pessoas apresentam tais reações fóbicas diante da ideia do além, o que talvez seja mais comum do que imaginamos (fiz um vídeo sobre o tema no YouTube e várias pessoas se identificaram com o problema).

Segundo ele seria importante os profissionais da saúde perguntarem ativamente sobre o medo de fantasmas para pacientes queixando-se de dificuldade para dormir e sonolência diurna, pois muitas vezes o real motivo para a insônia fica escondido. Lá no escuro, debaixo da cama.

 

de Oliveira-Souza R. Phobia of the Supernatural: A Distinct but Poorly Recognized Specific Phobia With an Adverse Impact on Daily Living. Front Psychiatry. 2018 Nov 16;9:590. doi: 10.3389/fpsyt.2018.00590.

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Leitura mental

O efeito Dunning-Krueger é aquela situação muito comum, quando a gente sabe um pouco sobre algo mas não tem noção do tamanho da nossa ignorância. Acho que hoje em poucos temas sofrem tanto com isso como a teoria da evolução. Mas não nos desesperemos, chegou o livro para escancarar nossa ignorância à medida em que nos esclarece. Darwin sem frescura : Como a ciência evolutiva ajuda a explicar algumas polêmicas da atualidade é uma parceria entre o repórter, escritor e tradutor Reinaldo José Lopes e o biólogo e divulgador científico Pirula, lançado esse ano pela HarperCollins. Dominando a arte de traduzir pesquisas científicas de ponta para o público leigo, a dupla traz luz sobre um tema que todo mundo acha que entendeu, até entender de verdade depois de atravessar seus capítulos, que vão do DNA ao senso moral sem perder o senso de humor.