Do que você tem mais medo no mundo todo? Numa de suas tiradas geniais, o comediante Jerry Seinfeld se dizia intrigado com o resultado das enquetes sobre medo. Parecia o maior medo das pessoas era falar em público. E em segundo lugar… morrer. “O quê?” indagava ele “Quer dizer que as pessoas preferem morrer do que falar em público?”. Ele não se conformava: “Isso significa que num velório, se tiver que escolher, uma pessoa comum preferiria estar no caixão do que fazer um discurso em homenagem ao morto.”

Não sei se é para tanto. Mas de fato expor-se socialmente, sobretudo quando tem que apresentar algum resultado, desempenhar uma função, “performar”, como se diz no mundo corporativo, pode ser bastante estressante. Isso tem raízes evolutivas – já que a sobrevivência nos pequenos grupos caçadores e coletores dependia da reputação junto aos outros, e perder o respeito alheio era uma ameaça real. Mas sem dúvida é alimentado por nossa cultura, já que não só reputação, mas aparência e sucesso também são supervalorizados na sociedade. Expor-se é colocar tudo isso em risco.

O pior é que, mesmo num mundo que se torna cada vez mais virtual, a comunicação interpessoal é cada vez mais necessária. As fronteiras entre as áreas do conhecimento vêm se apagando, a necessidade de circular as ideias de um universo para outro é crescente, e as pessoas precisam superar essa barreira de se expor se quiserem ser bem-sucedidas nesse novo mundo – qualquer se seja a definição de sucesso. Pelo menos essa é a tese do guru da tecnologia Chris Anderson, fundador da revista Wired, autor do best-seller transformado em conceito “A cauda longa”, e presidente do TED, a instituição que promove aquelas palestras breves, dinâmicas que você já deve ter visto na internet. Até hoje já foram realizadas milhares de palestras, que somam bilhões de visualizações. E baseado nessa experiência Anderson escreveu agora o livro TED Talks, o guia TED para falar em público, lançado no Brasil pela Intrínseca. Ele usa os exemplos bem e malsucedidos que presenciou nos últimos anos para dar dicas sobre a as bases de uma boa palestra, sua preparação e a apresentação em si. Não são apenas truques de oratória. As reflexões ao longo do texto são capazes de enriquecer qualquer apresentação: a importância de ter o que dizer, a necessidade de ensaio, a diferença que faz colocar o ouvinte no centro das atenções (em vez de querer ser o centro das atenções), são lições que vale a pena tentar.

Uma delas, aliás, acaba de ser demonstrada cientificamente. Anderson sugere que no começo da sua apresentação sejam identificadas algumas pessoas na plateia que pareçam amigáveis, que demonstrem gostar do que estão ouvindo, e fixar nelas o olhar. Com isso ganha-se confiança para posteriormente correr o olhar pelas outras pessoas. Curiosamente, um estudo chinês publicado recentemente mostrou que as pessoas com ansiedade social tendem a olhar mais para os membros da plateia com posturas negativas, aqueles que bocejam ou balançam negativamente a cabeça, do que as pessoas com menos ansiosas. É como se elas já temessem o pior, e por isso se focam nas pistas que confirmam o fiasco que elas já esperavam. Descobriam ainda que havia uma relação direta entre o tempo gasto olhando para quem os reprovava e quão ansiosos os palestrantes se sentiam.

 

eggs-1482006_1920

foto: Pixabay. Domínio público.

 

A dica é quente, portanto. E Anderson vai além, sugerindo convidar alguns amigos para ficar na plateia, inicialmente mantendo os olhos neles. Claro que nada disso sozinho vai transformar alguém num comunicador brilhante. Mas se transformar um pouco a forma como nos comunicamos no dia-a-dia, já é um bom começo.

ResearchBlogging.org
Lin, M., Hofmann, S., Qian, M., Kind, S., & Yu, H. (2015). Attention allocation in social anxiety during a speech Cognition and Emotion, 30 (6), 1122-1136 DOI: 10.1080/02699931.2015.1050359