Entender o porquê das coisas nem sempre é um desafio fácil. Existem tantas forças moldando a realidade, das naturais às econômicas, da força bruta à força das ideias, que corremos o risco de nos perder na tentativa de compreender as realidades à nossa volta.

Quando era jovem lembro de ter ficado apaixonado por uma série chamada Conexões (na TV Cultura dos anos 1990, claro). O historiador da ciência James Burke mostrava a cada episódio como um desenvolvimento tecnológico levava a outro, e esse a outro, e como cada inovação acabava absorvida para suprir diferentes necessidades. Com essa narrativa ele estabelecia pontes que iam das minas de carvão até as viagens espaciais, e tal perspectiva histórica me fascinou pela capacidade de ampliar a compreensão das coisas.

Para entender completamente a desconfiança que vemos cercar a medicina, portanto, nada melhor do que um passeio pela história. Três livros lançados esse ano ajudam nesse caminho. A partir deles, quando ouvirmos dizer que nos tempos atuais a medicina está sendo questionada, que a ciência se distanciou das pessoas e perdeu credibilidade, que o povo prefere acreditar na opinião do vizinho do que do médico, saberemos que isso não vem de agora.

Dois deles são do cirurgião, escritor e professor de história da medicina francês Jean-Noël Fabiani. Apesar de seu conhecimento panorâmico e acadêmico, em A fabulosa história do hospital (L&PM, 2019)  ele opta por seguir o caminho inspirado na micro-história, narrando eventos localizados, específicos, por vezes corriqueiros, mas que refletem grandes movimentos históricos e vieram desembocar em nossa realidade. Como nos capítulos em que trata da história da instituição hospitalar propriamente dita. Construídos inicialmente desvinculados da ideia de doença, eram locais para receber peregrinos e desvalidos. Mas com o crescimento das cidades vieram as epidemias, e muitas pessoas precisavam dessa ajuda. A caridade fez com que a preferência fosse dada aos doentes, que além de um teto passaram a receber cuidados. Daí vem a familiaridade entre hospital, hospitalidade e hospício.

Já em 30 histórias insólitas que fizeram a medicina (Vestígio, 2019), Fabiani escreve capítulos mais longos, aprofundando-se um pouco mais nos casos para articular diferentes momentos, estabelecendo pontes entre as descobertas, à moda do que Burke fizera no Conexões. É o caso dos três capítulos seguidos em que traça um painel do desenvolvimento da assepsia cirúrgica. O autor parte do Dr. Semmelweis, um obscuro médico húngaro jamais reconhecido por seus pares, passa por um obstinado cirurgião escocês, Dr. Lister – que tomando conhecimento das ideias de Semmelweis uniu-as às de Pasteur para reduzir dramaticamente as mortes de seus pacientes operados –  e chega ao desenvolvimento das luvas cirúrgicas, motivadas por um romance entre o Dr. Halsted e a enfermeira Hampton, sua instrumentadora.

Se a partir desse resumo houver interesse em conhecer mais profundamente do que eram as cirurgias antes do desenvolvimento da assepsia, vale a pena conferir o Medicina dos horrores (Intrínseca, 2019), de Lindsey Fitzharris, historiadora da ciência e da medicina, além de escritora e youtuber. O livro reconstrói esse episódio da história – a transformação da cirurgia em função da implementação dessas ideias – a partir da biografia de Joseph Lister, que com sua persistência e visão foi capaz inovar num campo eminentemente tradicional, avesso a inovações.

Uma coisa comum entre os três livros é que todos deixam claro que a história da medicina não é uma linha de reta de descobertas pacificamente abarcadas pelos médicos e aceitas pela população. Ao contrário, é uma história de desconfiança, discordâncias e debates acalorados.

O que ajuda a entender em parte nosso próprio tempo. Afinal, por que agora seria diferente?