Eu não estava programando voltar a escrever sobre seriados, mas é difícil resistir. Tanto me recomendaram o Manhunt: Unabomber, produção do Discovery Channel em oito capítulos, disponível na Netflix, que resolvi conferir. E cá estou, recomendando também.

O drama é uma versão ficcional da história da prisão de Ted Kaczynski, conhecido mundialmente como Unabomber. Entre os anos de 1978 e 1995 Kaczynski aterrorizou os EUA, enviando cartas-bomba a diferentes pessoas, matando três e ferindo outras 23. A maior parte do seriado trata da caçada – as centenas de perfis imprecisos que foram produzidos pelos especialistas do FBI (já falamos sobre os alcances e limites dessa prática aqui); a inescapável politicagem por trás das buscas; obsessão quase insana do protagonista em capturar o terrorista.

Mas no final das contas, quando ele já está preso – e em se tratando de uma história real com uma das maiores coberturas de imprensa de todos os tempos não sei o que se pode considerar spoiler (de qualquer forma fica a dica – vou falar sobre a trama) – o FBI quer evitar o julgamento a todo custo. Eles acreditavam que Kaczynski aproveitaria para espalhar suas ideias, transformando o tribunal num palanque. Por isso gostariam que ele se declarasse culpado, mas isso ele se recusa a fazer. Os seus advogados resolvem, para salvar sua vida, declarar insanidade. Evitariam a pena de morte em troca da internação psiquiátrica. Para ele, contudo, isso é pior do que a morte. As bombas eram a maneira de ele levar suas excêntricas ideias adiante, pregando sua mensagem contra a sociedade tecnológica. Uma vez declarado insano todo seu discurso seria esvaziado como palavras de um louco, algo para ele inadmissível. Para evitar esse fim, declara-se culpado, numa última vitória do FBI. Está até hoje preso, condenando a oito prisões perpétuas consecutivas, sem direito a apelo.

Essa é uma boa discussão. Particularmente acredito que ele tenha sim um transtorno mental. Ao menos da forma como é retratado ele lembra muito alguns casos de transtorno de personalidade chamada esquizoide. Não é o mesmo que esquizofrenia, pois essas pessoas não perdem o contato com a realidade. E claro que ninguém se torna terrorista só por ter tal diagnóstico. Mas o padrão de personalidade com isolamento extremo, ausência de relações significativas, indiferença afetiva, excesso de fantasia e introspecção, levando a prejuízos na vida, são sinais sugestivos.

O paradoxal é que se for esse diagnóstico ele poderia continuar a ser considerado responsável por seus atos e ao mesmo tempo ter seu discurso esvaziado. As ideias não seriam mais fruto da genialidade e sim do distúrbio. Mas nos transtornos de personalidade habitualmente a capacidade de diferenciar certo e errado e agir de acordo estão preservadas. Ou seja, ele pode até ter mandado bombas para defender ideias insanas, mas sabia muito bem que estava matando inocentes de forma criminosa.

Trata-se de uma lição na qual deveríamos prestar mais atenção em nossos tempos tão polarizados. Nós podemos achar o que quisermos, ser contra, a favor ou radicalmente muito pelo contrário. Mas quando uma ideia está nos levando a ferir os outros, vale a pena questionar quão sã ela é.

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Leitura mental

Falando em ideias e convicções, é impressionante notar como nós passamos a vida de certeza em certeza sem nos darmos conta de como é fácil nos enganarmos. Não se trata apenas de falhas de percepção, como já fica explícito na famosa ilusão de ótica “café wall”, impressa na capa do livro Sobre ter certeza : Como a neurociência explica a convicção, do neurologista e escritor Robert Burton, lançado no Brasil pela editora Blucher. Além dessas falhas de imput, nosso cérebro é ótimo em nos transmitir o que Burton chama de “sensação de certeza”, levando-nos a acreditar piamente em coisas que podem não ter qualquer base no conhecimento. Na maioria das vezes a convicção é apenas isso – uma sensação construída sem o menor auxílio de nossa razão. Deveria ser leitura obrigatória, disso eu tenho certeza.