Não sei bem a razão, mas há tempos não vejo um lanterninha em ação – os mais jovens podem nem saber que essa categoria profissional já existiu. Quem chegava um pouco atrasado ao cinema, quando as luzes já se haviam apagado, tinha dificuldade de encontrar um lugar até que os olhos se acostumassem à escuridão. Era quando entrava em ação o lanterninha, um sujeito que, de posse de uma pequena lanterna a pilhas, ajudava o atrasado a se orientar dentro do cinema. Não encontro uma explicação definitiva para a extinção da classe, mas saúdo com alegria o lançamento de uma coleção de livros chamada justamente “Coleção lanterninha”, do selo Amarilys da editora Manole. A proposta é publicar livros que deram origem a filmes clássicos do cinema; o nome vem pois a calhar, já que tais obras sem dúvida ajudam o leitor/espectador a se orientar com relação ao filme em questão.

Li de uma sentada um dos primeiros livros, “O inquilino”, que inspirou o filme homônimo do perturbado(r) Roman Polanski, escrito pelo versátil e pouco conhecido entre nós Roland Topor. Conta a história de um rapaz que, após mudar-se para o apartamento de onde a antiga moradora saltara pela janela, progressivamente vai se convencendo de que os vizinhos estão mancomunados num plano para também levá-lo ao suicídio, fazendo-o enlouquecer. Lembro-me de ter visto o filme de Polanski no início da minha especialização em psiquiatria, por recomendação dos professores, justamente pela descrição – em primeira pessoa – da perda gradual do contato com a realidade. Num primeiro surto psicótico a angústia e a perplexidade vêm da sensação de que está tudo muito estranho, até que o delírio se instala definitivamente e o paciente “compreende tudo” – são os vizinhos que o estão espiando e tramando para matá-lo, ou coisas do gênero. Paradoxalmente, a angústia da não compreensão do que está acontecendo diminui, pois agora ele “sabe” qual o problema, mas a raiva aumenta diante da indignação com a injustificável perseguição.

Nesse mês foi publicado um estudo grande, com quase quinhentas pessoas em primeiro surto psicótico (o que é difícil conseguir, pois normalmente os pacientes chegam até os centros de pesquisa já com anos de história). O objetivo era saber se os delírios podiam fazer com que os pacientes se tornassem violentos. O relato de episódios de agressão durante os 12 meses anteriores ao início do tratamento, na presença de sintomas psicóticos, revelou que não são as ideias irreais que fazem, por si sós, aumentar o risco de violência dos pacientes. O que ocorre, e que tanto o filme como o livro descrevem bem, é que três categorias comuns de sintomas – a sensação de estar sendo espionado, perseguido e a existência de uma conspiração contra si – geram raiva em quem os experimenta, podendo levar a alguma reação contra os supostos perseguidores. Nesse estudo, 12% dos pacientes se envolveram em violência grave.

Por acaso ou não esses três sintomas ocorrem com o infeliz protagonista de O inquilino. Sua reação, contudo, é menos explosiva do que poderia, até por seu temperamento pacato prévio, o que a narrativa mostra com bastante coerência ao longo da história. É por essa e por outras que a arte é uma ferramenta preciosa para todos os que lidam com a doença mental – é das melhores formas, e talvez uma das únicas, de se conhecer o sofrimento psíquico dos pacientes de uma perspectiva interna.

ResearchBlogging.org
Coid JW, Ullrich S, Kallis C, Keers R, Barker D, Cowden F, & Stamps R (2013). The Relationship Between Delusions and Violence: Findings From the East London First Episode Psychosis Study. JAMA psychiatry (Chicago, Ill.), 1-7 PMID: 23467760