Achei comovente a foto do Lula careca e sem barba, junto a sua esposa. Havendo ou não cálculo político por trás da cena, ela é corajosa por expor uma situação de grande fragilidade pessoal.

Os pelos corporais são parte da nossa imagem, por isso mudanças radicais no cabelo, barba etc., sobretudo quando ocorrem no contexto do adoecimento, podem ser bastante traumáticas. No caso específico da perda de cabelos por conta do tratamento de câncer existem ainda implicações mais profundas: comparando as consequências emocionais desse efeito colateral em homens e mulheres identificou-se que, embora o impacto nos homens seja subestimado (o que se nota pela escassez de estudos sobre o tema), a calvície decorrente da quimioterapia traz para o sexo masculino a sensação de exposição, de perda de controle sobre a doença, fazendo-os se sentirem julgados e estigmatizados como “cancerosos”. E ainda mais do que as mulheres eles se ressentem da perda dos pelos de outras regiões corpóreas. Por outro lado, é interessante notar que raramente se sugere ao homem que utilize uma peruca para minimizar a mudança no visual, como é a regra no caso das mulheres. Mas o uso de perucas, tanto quanto a calvície, é também visto como uma agressão ao impor uma alteração na imagem corporal do doente contra sua vontade.

O caso de Lula tem atenuantes, mas também agravantes.

Uma das principais queixas dos pacientes é que perder os cabelos revela às pessoas que eles estão com câncer, coisa que geralmente se prefere esconder. Como o ex-presidente já viera a público declarar sua doença, esse desconforto pode não lhe ser tão penoso. No entanto, existe toda uma sociologia dos cabelos (literalmente, como mostra o título do estudo abaixo), segundo a qual os sinais que mostram os pelos corporais são símbolos poderosos. Por exemplo, “ideologias opostas têm pelos opostos”: se a regra é ter cabelos curtos, usá-los longos será um sinal de protesto; a barba, que era o padrão no século XIX tornou-se mais rara no século XX, fazendo seu uso ser também revestido, em certa medida, de uma postura anti-establishment (há empresas que até hoje as proíbem aos funcionários). No caso de Lula isso foi mais do que evidente: nos anos oitenta, quando encarnava a própria oposição, sua barba era vasta e vistosa, mas com o passar do tempo, conforme foi se aproximando da situação ela foi minguando. Ainda assim, era para ele um símbolo forte cuja perda deve ter causado um impacto que não pode ser menosprezado. E como estamos falando de um político os cabelos são de importância ímpar, pois segundo essa sociologia capilar a calvície é vista como sinal de envelhecimento e, portanto, de fraqueza e aproximação da morte (vide a história de Sansão e Dalila), péssimos na política. Pode ser exagero interpretativo, mas o fato é que raramente vemos políticos calvos eleitos para cargos majoritário (a última vez em que os americanos elegeram um careca presidente dos EUA foi em 1956, antes da massificação das transmissões de TV).

Por isso que, sem entrar em ideologias partidárias ou políticas, considerei a foto comovente: porque vi ali a imagem de um homem forte o bastante para não esconder sua fraqueza.

ResearchBlogging.org
(I) Hilton, S., Hunt, K., Emslie, C., Salinas, M., & Ziebland, S. (2008). Have men been overlooked? A comparison of young men and women’s experiences of chemotherapy-induced alopecia Psycho-Oncology, 17 (6), 577-583 DOI: 10.1002/pon.1272
(II) Synnott, A. (1987). Shame and Glory: A Sociology of Hair The British Journal of Sociology, 38 (3) DOI: 10.2307/590695