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Pensando na questão israelo-palestina, lembrei-me de um estudo clássico sobre o diagnóstico psiquiátrico, e compartilho as reflexões.

O ódio ao inimigo, bem como os transtornos mentais, têm a ver com estigmas. Estigmas são poderosos, pois uma vez atribuídos a alguém têm a capacidade de explicar tudo sobre ele, ao mesmo tempo em que bloqueiam qualquer possibilidade de explicação alternativa. Além disso é muito difícil retirar um rótulo após assumirmos sua pertinência.

Isso ficou claro no estudo “On being sane in insane places”, publicado em 1973 na revista Science. Era um experimento para verificar se seria possível diferenciar doentes mentais de pessoas sãs durante uma internação psiquiátrica. Oito pessoas sem qualquer diagnóstico psiquiátrico se apresentaram, em diferentes momentos, a 12 hospitais psiquiátricos queixando-se de estar ouvindo vozes pouco claras, dizendo palavras como “vazio” ou “tum”, sem nenhum outro sintoma. Todos receberam o diagnóstico de esquizofrenia e foram internados. A partir daí comportavam-se de maneira absolutamente usual e passavam a dizer já não ouvir mais vozes. Apesar disso, as internações duraram entre 7 e 52 dias, com um média de 19, até que recebessem alta (sem que nenhum fosse descoberto como falso paciente).

As notas das internações revelam como, uma vez estabelecido o diagnóstico, todo o comportamento dos sujeitos passava a ser interpretado como sintoma. Mais do que isso, seu histórico pregresso era encaixado para se moldar ao que se esperava de um paciente com esquizofrenia. Após pregado o rótulo, ninguém da equipe, psiquiatras, psicólogos ou enfermeiros, foi capaz de não vê-los como doentes.

Penso que assim como “louco”, “inimigo” é um rótulo forte. E útil, pois ele explica toda a hostilidade que alguém nos dirige, e ainda melhor, explica nosso ódio a algumas pessoas. Claro que seria ingênuo reduzir todo o conflito do Oriente Médio a uma questão de estigma – nas altas esferas da geopolítica internacional importam muito pouco as pessoas envolvidas no front, se são boas ou más, bem ou mal-intencionadas, os interesses são outros. No rés do chão, entretanto, no dia-a-dia do cidadão que apóia um ou outro lado, a figura do inimigo é fundamental, pois por meio da despersonalização que o estigma traz é muito mais fácil convencer alguém de que outro ser humano merece ser assassinado.

Mas há um antídoto interessante para o estigma, encontrado por acaso na experiência com os falsos pacientes: embora nenhum deles tenha sido descoberto pela equipe, quase 30% dos reais doentes internados descobriram a verdade. “Você não é louco.” “Você deve ser um jornalista.” diziam eles. Por que? Provavelmente porque eles passavam muito mais tempo do que a equipe junto com os falsos pacientes, e essa proximidade os permitou ver a pessoa além do estigma. Talvez seja por isso que em locais longe da guerra, onde judeus e árabes são vizinhos e compartilham o cotidiano, eles não se veem necessariamente como inimigos, mas como indivíduos – a proximidade os leva a enxergar além dos rótulos.

Resolve a questão israelo-palestina? Não. Mas poderia resolver muito do ódio que se vê nos olhos das pessoas.

ResearchBlogging.org Rosenhan, D. (1973). On Being Sane in Insane Places Science, 179 (4070), 250-258 DOI: 10.1126/science.179.4070.250