Finalmente chegou a hora de falar das Crônicas de Gelo e Fogo. A aclamada série de livros de George R. R. Martin é um épico da literatura de fantasia que ganhou mais notoriedade depois de ser adaptada com estrondoso sucesso para a televisão na série A Guerra dos Tronos, da HBO.

Esse é possivelmente um dos mais pretensiosos projetos da literatura ocidental e por isso é impossível resumir a história num post. E nem seria proveitoso, já que o interessante é acompanhar o desenrolar da história ao longo das suas literalmente milhares de páginas, testemunhando maquinações políticas, guerras, traições, que o escritor consegue descrever ao mesmo tempo em que mantém o foco sobre os personagens. As ambiguidades humanas, as contradições dos desejos, medos e aspirações não são ignoradas na composição dos protagonistas, quase sempre impedindo o leitor de categorizá-los simplesmente como “bons” ou “maus”.

Esse é o tipo de literatura que tem tudo para se tornar um clássico. A atemporalidade de algumas obras não vem de graça, nem é uma questão da grife do escritor. Livros que duram são aqueles que conseguem tocar em questões essenciais da humanidade, sem oferecer saídas fáceis para os becos em que entram aqueles que se propõe a penetrar o mundo psicológico. A literatura de entretenimento simples, na qual os personagens são menos contraditórios, que oferece menos camadas de interpretação, tem sua função, sem dúvida alguma – não são todos os dias que queremos profundidade – mas ela não ajuda a ampliar a compreensão do fenômeno humano.

Um estudo publicado esse mês na revista Science não me deixa mentir. Já existiam evidências de que a prática da leitura nos ajuda a desenvolver a habilidade de reconhecer as emoções das outras pessoas – a chamada empatia. Mas nessa pesquisa os autores resolveram testar se o tipo de literatura fazia diferença. Para isso pediam que voluntários lessem trechos de obras reconhecidas como alta literatura, ou textos de best sellers despretensiosos, ou então artigos informativos não ficcionais. Em seguida eles deveriam completar tarefas de reconhecimento de emoções, tanto em expressões faciais completas como em fotos mostrando apenas os olhos das pessoas. Depois de meras 10 a 15 páginas, quem leu ficção foi melhor do que quem leu não-ficção de forma geral, mas quem foi exposto a textos mais complexos foi ainda melhor do que os outros.

Os autores acreditam que o esforço mental para compreender os personagens e as situações ambíguas, preenchendo as lacunas deixadas pelos escritores, pode explicar essa vantagem – a capacidade de se colocar no lugar do outro e tentar sentir o que ele está sentido, é, afinal de contas, o que dá sentido à experiência da leitura.

Nós não podemos ter certeza de antemão quais obras resistirão ao crivo do tempo. Mas cá entre nós, não precisa esperar cem anos para ler as Crônicas de Gelo e Fogo. Aposto que elas sobreviverão. E também que desde já elas podem te ajudar a compreender esse mundo tão complicado dos humanos.

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Kidd DC, & Castano E (2013). Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind. Science (New York, N.Y.) PMID: 24091705