fonte: pixabay

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Há pouco tempo meus pais me deram dois livros que liam para mim quando era criança. Lembro que adorava aquele cachorrinho laranja, Pingo, que nos ensinava cores, formas, números e animais. Mas o que mais me espantou foi ver que meu filho de quatro anos adorou o livro, escrito quarenta anos atrás.

Uma das melhores coisas que você pode fazer pelos seus filhos é colocá-los em contato com livros. Vários estudos já mostraram como expor as crianças à linguagem escrita é importante. Do desenvolvimento da empatia às habilidades verbais, da tolerância ao desenvolvimento de vocabulário, várias habilidades são estimuladas pela leitura. Um grande estudo europeu foi além, e mostrou que crescer entre livros está relacionado a maior ganho financeiro na idade adulta. Analisando dados de nove países europeus, descobriu-se que os meninos que tiveram contato com dez livros ou mais (fora os livros escolares), ganhavam em média 9% a mais por ano do que os outros. Pode não ser um efeito direto do livro, claro, mas simplesmente um sinal de que a família já tinha dinheiro para livros, ou que valorizava a educação, mas nunca se sabe.

Boa parte do impacto da leitura no desenvolvimento vem do enriquecimento do vocabulário. Crianças aprendem mais palavras quando expostas à linguagem do que quando ensinadas diretamente; e a linguagem escrita é mais eficaz nessa construção de vernáculo do que a linguagem oral. Se não por outro motivo, porque ela é muito mais rica.

Estudos em inglês dão prova disso. Pesquisadores fizeram um ranking de frequência da utilização das palavras, classificando-as da mais usadas (“the”, em inglês), para as menos frequentemente empregadas. Consideraram então as 10.000 palavras mais usadas como comuns, e raras aquelas colocadas mais abaixo no ranking (ou seja, menos utilizadas. “Amplifier” [amplificador], por exemplo, estava na posição 16.000, sendo então rara; ao contrário de “shrimp” [camarão], que ficou em 9.000). Compararam então o conteúdo da linguagem oral em diferentes contextos (programas de TV para adultos, para crianças, desenhos animados, diálogos entre estudantes universitários e testemunhos de peritos judiciais) com o conteúdo da linguagem escrita, também em meios distintos (resumos de artigos científicos, jornais, revistas, livros adultos, quadrinhos, livros infantis e livros pré-escolares). Colocando os resultados no papel, viram como a linguagem falada é pobre em comparação à escrita. Quando fizeram uma média do ranking de frequência das palavras usadas, os livros pré-escolares se mostraram mais complexos do que praticamente todas as formas de linguagem oral. E ao contar diretamente as palavras raras, os livros infantis tinham proporcionalmente mais delas do que todas as formas de linguagem oral.

Conhecer palavras é fundamental para compreender o mundo. A importância de aprender a dar nome para as coisas fica clara, por exemplo, nos exercícios de autocontrole emocional. É muito mais fácil conseguir se controlar quando se identifica a emoção que se está sentindo. Mas isso é quase impossível se não sabemos seu nome. Gosto do exemplo do teólogo Paul Tillich, que disse que “A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho”. Mudando apenas uma palavra podemos descrever a mesma pessoa, na mesma situação, tendo sentimentos opostos.

Não sei como anda o hábito de ler para as crianças depois da revolução digital. Espero que os pais não abandonem os livros (seja em que formato for). Porque se por um lado a palavra escrita muda para se adaptar à velocidade da internet e da comunicação moderna, por outro o cachorrinho Pingo nos mostra que as crianças não mudaram tanto assim.

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ANNE E. CUNNINGHAM, & KEITH E. STANOVICH (1998). What reading does for the mind American Educator, 22 (1-2), 8-15