foto de Alexander Lesnitsky/Pixabay

Você deve ter visto o vídeo do entregador que foi ofendido por um rapaz num condomínio no interior de São Paulo. As imagens viralizaram com os comentários indignados de sempre. Claro, não poderia ser diferente diante de cenas flagrantes de discriminação e preconceito. Aviso, no entanto, que se você já lacrou nas redes sociais condenando peremptoriamente o sujeito e nem pensaria em refletir sobre sua postura não precisar ir em frente com a leitura. A ideia aqui é mostrar como na vida real as coisas são mais complexas do que a simplicidade que aparentam no debate superficial da internet.

Isso porque no meio da discussão,  sem qualquer relação com o que está sendo dito, o ofensor diz “Meu nome está na Bíblia”. Oi? Seria preciso uma ginástica semiótica muito grande para articular essa ideia com o contexto geral dos xingamentos. Parecia realmente uma frase desconexa. E era. Descobriu-se posteriormente que o rapaz sofre de esquizofrenia. Aí vale a pena parar para pensar um pouco. Parar e pensar. Eu sei que as duas coisas são desafios difíceis hoje em dia. Mas vale a pena.

Como falo há pelo menos uma década por aqui, em sua maioria os pacientes com transtornos mentais não são violentos, agressivos, muito menos criminosos. É mais fácil serem vítimas que autores de violência. E nem precisa dizer racismo não é um sintoma descrito na esquizofrenia. Logo, as cenas que vimos envolvendo o rapaz não podem ser explicadas apenas pelo transtorno mental.

Por outro lado, quem conhece o problema de verdade sabe que inicialmente a esquizofrenia era chamada de demência precoce justamente porque os pacientes ainda jovens apresentavam perdas cognitivas que os tornavam tão prejudicados como os idosos com demência. Claro que com o desenvolvimento dos tratamentos, tanto remédios como intervenções não-farmacológicas, essa evolução não é mais sempre tão grave. Ainda assim que lida com esses pacientes sabe que diversas de suas habilidades usualmente mentais são prejudicadas.

Dentre elas, a cognição social pode ser particularmente afetada. Muitos pacientes desenvolvem precocemente uma dificuldade no reconhecimento de emoções, principalmente emoções negativas, o que pode lhes conferir um ar de indiferença afetiva. É um tipo de sintoma que responde muito pouco a qualquer tipo de tratamento, assim como o déficit que podem apresentar na capacidade de compreender as intenções alheias. Chamada de Teoria da Mente, é a habilidade que nos permite entrar na cabeça do outro e raciocinar a partir do seu ponto de vista, deduzindo o que o ele quer, no que está pensando etc.  Além dessas duas defasagens, a cognição social pode ser ainda prejudicada na medida em que pacientes com o subtipo de esquizofrenia chamado paranoide sofrem com um viés personalista: quando as coisas dão errado, eles tendem a achar que a culpa é de alguém, mais do que das circunstâncias ou do acaso.

Saber de tudo isso muda um pouco a forma de assistir aquela cena. Claro que alguém pode ao mesmo ter esquizofrenia e ser racista. Mas se aquela frase desconexa é um indício de que a cognição do rapaz não está mesmo totalmente preservada, é fácil imaginar que suas capacidades de avaliar adequadamente a acalorada situação social em que se encontrava – e de se conduzir nela –  também fossem prejudicadas. Mesmo que ele não estivesse em surto psicótico, fora da realidade.

Não digo que a doença torne o ofensor inocente ou que seja a causa única de seu comportamento. Mas imaginemos, só por hipótese, que ele tenha todas essas dificuldades e elas prejudiquem significativamente seu autocontrole. Se for o caso – e ainda ninguém sabe ao certo se é ou não – linchá-lo, mesmo que virtualmente, não ajuda em nada a melhorar as coisas. Nem o mundo, nem ele.

 

David L. Penn, Lawrence J. Sanna, David L. Roberts, Social Cognition in Schizophrenia: An Overview, Schizophrenia Bulletin, Volume 34, Issue 3, May 2008, Pages 408–411,