Cena de Geri’s Game. Fonte: Disney-Pixar.

No início morríamos comidos por uns bichos, picados por outros, até que aprendemos a nos defender. Passamos a morrer por causa de outros bichos, microscópicos, antes de descobrir como combatê-los. Fomos ficando um pouco mais velhos, mas nossos vasos não aguentavam o tranco, e morríamos de infarto e AVC – enquanto não havíamos encontrado meios de desentupi-los. E assim ganhamos mais umas décadas. Não é por acaso que hoje se fala tanto em câncer e demências. Com o envelhecimento da população essas são as doenças da vez; claro que se morre de tudo o que sempre se morreu, mas cada vez mais sobrevivemos aos anos, chegando ao ponto em que as células de algum órgão, ou os próprios neurônios, são nocauteados pelo tempo.

Muito esforço tem sido destinado a pesquisas sobre essas doenças e descobertas importante começam a aparecer. Acabou de ser publicada no Journals of Gerentology, revista científica respeitada entre os especialistas em gerontologia, geriatria e afins, uma pesquisa mostrando que envolver-se regularmente em jogos analógicos previne o declínio cognitivo. E mais: dependendo da idade, pode até reverter algumas perdas.

Trata-se de uma pesquisa inovadora porque a maioria dos dados relacionando jogos de cartas, de tabuleiro ou de palavras mostravam associação mas não causa. Ou seja, sabia-se que essas atividades estavam ligadas a boa saúde mental, mas não se sabia o que era causa e o que era consequência (quem joga mais fica mais lúcido ou quem é mais lúcido joga mais?). Eesse estudo britânico, contudo, comparou pessoas avaliadas aos 11 anos de idade e posteriormente aos 70, 73, 76 e 79 anos. Além disso outras variáveis associadas ao desempenho cognitivo, como escolaridade, nível socioeconômico, diversas atividades na vida, presença de doenças como diabetes, hipertensão ou doenças cérebro-vasculares foram investigadas. Com isso os cientistas puderam levar em conta o tempo – não apenas fazer o retrato de um só momento – e ainda isolar os fatores, reduzindo a confusão entre causas e consequências.

Os resultados mostraram que o hábito de se jogar offline protegeu as pessoas contra a perda cognitiva entre a infância e a velhice. Mesmo depois de corrigir os números levando em conta outras variáveis os cientistas conseguiram atribuir 64% dessa proteção aos jogos em si mesmos, e não a outros fatores de proteção como mais estudo, maior nível socioeconômico, ausência de outras doenças etc. E entre os idosos que aumentaram esse hábito entre os 70 e 76 anos houve melhora na velocidade de processamento mental.

Várias atividades protetoras contra as perdas associadas à idade requerem algum grau de sacrifício. Controlar a dieta e fazer atividade física, por exemplo, são excelentes, mas não são apreciadas pela maioria das pessoas. Descobrir que algo prazeroso como uma boa partida entre amigos, familiares ou mesmo com os netos também ajuda a prevenir o envelhecimento mental é uma excelente notícia.

Afinal, há tantas e tantas opções de jogos diferentes que quem não gosta de nenhum é só porque ainda não encontrou o seu.

 

Altschul DM, Deary IJ. Playing analog games is associated with reduced declines in cognitive function: a 68 year longitudinal cohort study.. J Gerontol B Psychol Sci Soc Sci. 2019 Nov 18.

 

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Ludicamente

Se a terceira idade é um segmento ainda não explorado pelo marketing das editoras de jogos de tabuleiro não é por falta de títulos que possam agradar os idosos. Há centenas, senão milhares, de jogos classificados como familiares, que são rápidos de aprender, não têm grande complexidade, mas promovem tanto o raciocínio como a diversão.

A recém lançada dupla de jogos sobre azulejos e vitrais portugueses, Azul (Galápagos jogos, 2018) e Azul – Vitrais de Sintra (Galápagos jogos, 2019), têm tudo para agradar a família em todas as gerações. Além do tema com apelo saudosista eles são visualmente muito bonitos e não requerem mais do que alguns minutos para ser aprendidos. O mecanismo básico de ambos é comprar e colocar peças (azulejos ou vitrais), para preencher padrões de acordo com regras e assim fazer mais pontos no final. As partidas, para 2 a 4 jogadores, duram entre 30 e 45 minutos – que passam voando quando estamos construindo painéis tão belos.

Outro lançamento que pode ganhar a simpatia de netos a avós é o Plenus (Devir, 2019). Imagine que o Tetris fosse transformado num bingo e precisasse de dados numéricos e coloridos. Essa salada divertida resulta num jogo em que a sorte não faz diferença se não for usada com estratégia. Numa cartela quadriculada estão espalhados espaços de tamanhos variados, em cinco cores diferentes. A cada rodada os dados apresentam possibilidades de ticá-los – 6 quadrados azuis, ou 3 azuis e 3 amarelos, por exemplo – de modo a preencher o máximo possível da cartela em 30 rodadas. São cinco minutos para aprender, vinte para jogar, e a manhã toda querendo jogar só mais uma vez.