Quem nunca tivesse visto um formigueiro e olhasse uma formiga caminhando sozinha, perdida, no chão de sua casa, não conseguiria imaginar que milhares daquelas criaturas juntas seriam capazes de montar sistema altamente organizado e tremendamente funcional. Assim como quem nunca ouviu uma sinfonia seria incapaz de prever um cérebro apto para composição musical apenas olhando um neurônio no microscópio. Essa organização complexa, sem comando central, é conhecida como emergência uma vez que emerge (de maneira imprevisível) a partir das interações de elementos mais simples.

As histórias sobre a imensa criatividade humana tendem a se concentrar nos momentos de epifania genial, como a mitológica maçã caindo sobre a cabeça de Newton ou o banho que precedeu a “Eureka!” de Arquimedes. No entanto a verdade é que a evolução tecnológica tem muito mais de emergência do que de inspiração genial, o que fica bem evidente quando se faz um mergulho na história das invenções modernas e se analisa os ambientes que as propiciam.

O impacto dessas inovações no nosso cotidiano pode ser visto desde a facilidade com que trocamos informações – sobretudo se comparado com a lentidão da informação em tempos passados – até a circunferência da cintura das pessoas, que cresce à medida em que a aumenta a disponibilidade de energia para cérebros famintos como os nossos. Mas nenhum impacto é mais claro do que o aumento da longevidade humana – de forma geral a expectativa de vida ao nascer praticamente dobrou em um século graças a inovações como medidas sanitárias, vacinas, antibióticos, que surgiram em ambientes inovadores emergindo a partir das interações individuais.

Assim podemos resumir brevemente parte da produção literária de Steven Johnson, um dos melhores escritores de ciência e tecnologia da atualidade, que vem sendo relançada pela editora Zahar. No livro De onde vêm as boas ideias ele faz uma análise dos ambientes propícios para a inovação; com tal perspectiva ele desvenda em outro livro, Como chegamos até aqui, os caminhos insuspeitos que levaram a algumas invenções – e as consequências imprevisíveis que elas tiveram na modelagem de nosso mundo atual.

E nessa mesma chave ele destrincha os motivos de a nossa expectativa de vida ter saltado exponencialmente no mais recente livro, Longevidade – uma breve história de como e por que vivemos mais. Nem só de pasteurização e vacinação estamos falando, pois para resultados tão expressivos descobertas geniais precisaram também de um ambiente em que havia formas para calcular a expectativa de vida e institucionalização de normas técnicas para aprovação de remédios, por exemplo.

Como Johnson faz questão de ressaltar, não se trata de uma narrativa triunfalista apenas para louvar tais resultados. É preciso compreender – de maneira ampla – o maior número possível de elementos que convergiram para isso, “não somente para comemorar essas conquistas, mas também para aperfeiçoá-las”. Proposta que faz não só em Longevidade, mas em toda sua obra.