O grito, de Edvard Munch.

 

A epidemia do coronavírus vem mostrando para nós como pode ser difícil decidir se tranquilizar, de propósito. Todo mundo cansou de ouvir que na maioria absoluta das vezes os sintomas são leves, frequentemente passam até despercebidos. Ninguém mais ignora que a letalidade é baixa. Mas ainda assim é difícil nos tranquilizarmos.

Parece que precisamos repetir como um mantra que a maioria das pessoas têm sintomas leves e que quase ninguém morre dessa gripe mas isso não basta para que relaxemos. Tentamos nos focar nos fatos, mas lutamos contra uma sensação de insegurança que nos põe em alerta. “A epidemia não chegou ao Brasil”, pensamos. “Mas vai chegar…” sussurra uma voz no fundo de nossas mentes. “Noventa e oito por cento das pessoas sobrevivem”, lembramos. “Mas três mil já morreram…”, recorda ela. “Jovens morrem menos”, insistimos. “Mas quem disse que você é jovem?”, provoca a tal voz.

Para piorar, a cobertura da mídia sofre do mesmo mal, transbordando ambiguidade ao tentar passar uma mensagem tranquilizadora ao mesmo tempo em que noticia o crescimento exponencial dos casos suspeitos e detalha as mortes mundo afora. “É uma epidemia. Mas fique calmo. Mas se cuide.”

Ocorre que o cérebro é uma máquina de encontrar respostas – soluções, padrões, explicações – e enquanto algo permanece em aberto nossa mente não (Viu só, que estranho? Ficamos muito incomodados diante de situações inexplicáveis, e a mente não para de girar até conseguir compreendê-la). É por isso que uma doença nova, desconhecida, que traz tantas perguntas sem resposta, nos coloca em estado de alerta. Queremos ficar calmos, mas é difícil. Some-se a isso o fato de ser uma situação totalmente fora de nosso controle individual – não podemos matar o vírus, impedir migrações, controlar o contágio – o que só faz aumentar a sensação de insegurança, outro combustível da ansiedade. A corrida por máscaras e álcool gel nada mais é do que a tentativa de nos sentirmos com pelos menos um pouco de controle.

Os boatos e as fake news proliferam nesse caldo de cultura justamente por se oferecerem como explicações simples e compreensíveis – mesmos que sejam falsas – para perguntas até então sem resposta. Desmenti-las pode ser difícil, portanto, já que traz de volta a sensação de insegurança. Ainda assim, a informação correta é o único remédio eficaz nesses contextos.

E apesar de não ter muito o que falar sobre o coronavírus, essa informação eu garanto: a angústia que você sente diante do desconhecido e incontrolável é totalmente normal. Não é preciso ficarmos ansiosos por estarmos ansiosos, pois é esse círculo vicioso que leva ao desespero.

Quanto mais cedo compreendermos isso, mais rapidamente nos livraremos de um pânico injustificado.

***

Leitura mental

As teorias conspiratória podem ser consideradas o ápice de sofisticação dos boatos. Costuram elementos distintos numa narrativa urdida para nos dar respostas simples e claras diante de realidades complexas e obscuras. De política internacional a astronomia, de relações humanas a eventos históricos, nosso complicado mundo tem dado espaço para que as mais mirabolantes teorias nasçam e cresçam. O livro Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota (Planeta, 2019) faz um apanhado das mais famosas em nosso meio, chamando a um aprofundamento nos temas ao identificar as raízes e consequências – além de desmentir – várias dessas ideias, do terraplanismo ao movimento antivacina.