Foto: Netflix

Dizem que para conhecer bem uma pessoa é preciso casar com ela, mas que só se irá conhecê-la de verdade na separação. Esse seria o momento quando as máscaras cairiam e quando cada um revelaria quem é de fato. Quantas histórias semelhantes à essa você já não ouviu? “Eu não sabia com quem tinha casado”. “Estava morando com uma pessoa desconhecida”.

Tem um fundo de verdade, mas é mais complicado do que isso.

De fato os processos de separação, quando se enveredam para discussões jurídicas, sobretudo materiais, costumam trazer para primeiro plano aspectos que não faziam parte do relacionamento ou que não eram muito relevantes. Isso dá a impressão de que a pessoa não era conhecida, já que esse lado – nada amoroso, materialista, mesquinho até – não fazia parte do dia-a-dia. Evidentemente trata-se de uma simplificação. Crer que esse ser autocentrado que se revela no divórcio representa o todo de alguém é tão ingênuo como ter acreditado que egoísmo não fazia parte da personalidade dele ou dela.

Nossa tendência a julgar a realidade de forma binária – ou isso ou aquilo, preto ou branco – nos leva a enxergar o ser humano de forma unidimensional. Se a pessoa é boa, não é ruim. Se for corajosa, não é covarde. Se meu ex-marido é cruel no divórcio, não pode realmente ser amoroso como se mostrara até então. Se a ex-esposa revela-se egoísta, a generosidade de antes era uma fachada. Ignorar que somos seres múltiplos, complexos, cheios de camadas, instáveis, traz essa sensação de incompatibilidade entre o antes e o agora. Um dos dois momentos deve ser mentira.

Fugir dessa armadilha do simplismo é um dos grandes méritos do filme História de um casamento, produção da Netflix indicada a meia dúzia de Oscars. A primeira pista está já no título, aparentemente contraditório para um filme que na verdade conta a história de um divórcio. Mas por mais que a trama gire em torno da loucura que pode se tornar uma separação litigiosa o roteirista e diretor Noah Baumbach se recusa a limitar os personagens à essa dimensão. A excelente atuação dos protagonistas Scarlett Johansson e Adam Driver mostra que ambos têm mesmo um lado agressivo, hostil e belicoso, aquele que faz questão de lembrar o pior do relacionamento, ao mesmo tempo em que se mantém humanos, frágeis, apaixonados até, lembrando o tempo todo que aquela relação é mais do que uma briga de tribunal. Não há um lado verdadeiro em oposição ao falso. Somos tudo ao mesmo tempo.

É uma visão um pouco mais angustiante da vida. Seria mais simples e tranquilizador colocar as coisas – e as pessoas – em determinadas caixas: bom, ruim, certo, errado. No entanto é também uma visão  libertadora saber que nem nós nem os outros somos prisioneiros de rótulos.

Mas a liberdade, afinal, não existe sem angústia.