Faz tempo que vejo políticos no Brasil denunciarem alguma forma de hipocrisia. Lembro do então presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcantti, atacando em 2004 a legislação de combate ao trabalho escravo: “Ora, Senhoras e Senhores Deputados. Vamos parar de hipocrisia, de fingir que somos a França, os Estados Unidos ou a Alemanha e que podemos copiar as suas avançadas legislações trabalhistas”.

Curiosamente na mesma época, já em 2005, tramitava a PEC que proibiria o nepotismo – o velho emprego de parentes por políticos. Cavalcantti era crítico também a essa medida, como revelou ao declarar que “Essa história de nepotismo é coisa para fracassados e derrotados que não souberam criar seus filhos.” Fazia coro com ele o então deputado Jair Bolsonaro, chamando justamente de hipocrisia a crítica ao nepotismo. (Não espanta, portanto, que ele tenha voltado a usar esse termo ao defender a indicação do seu filho para a Embaixada americana: “Sim, o Senado pode barrar [a indicação] sim. Mas imagine que no dia seguinte eu demita o [ministro de Relações Exteriores] Ernesto Araújo e coloque meu filho. Ele não vai ser embaixador, ele vai comandar 200 embaixadores e agregados mundo afora. Alguém vai tirar meu filho de lá? Hipocrisia de vocês”).

Não pretendo fazer dessa uma discussão sobre trabalho escravo nem sobre nepotismo. Mas sobre o que, afinal, os políticos querem dizer quando denunciam a hipocrisia. E qual a solução que eles apresentam.

Hipocrisia é um comportamento reprovado em muitas as culturas, porque a pessoa tenta passar uma boa imagem de si mesma, defendendo valores que ela na realidade não pratica. É o preguiçoso que discursa a favor do trabalho duro; o desonesto que prega a lisura; o adúltero que defende a monogamia. Não é o fato de fingir ser o que não é – preguiçosos, desonestos, adúlteros, todo mundo busca encobrir seus vícios. O hipócrita vai além e defende o oposto do que faz; ele quer mais do que não ser pego – ele quer criar uma imagem contrária à real, posando de arauto do bem que não faz.

Quando os políticos denunciam a hipocrisia, então, imagino que seja isso que eles estão apontando. Pessoas que têm um discurso diferente de suas práticas. Elas condenam o trabalho escravo mas exploram trabalhadores. Criticam o emprego de parentes mas querem dar cargos para seus filhos. Isso é ruim, de fato. Precisamos acabar com a hipocrisia.

O problema para  mim é que a solução oferecida por alguns deles vai na contramão do que se espera de um político. Ora, se a hipocrisia é defender valores que não são praticados, o que se espera de alguém que diz trabalhar pelo bem do povo é que coloque os valores em prática. Mas nossos políticos encontram uma saída alternativa, e em vez de abandonar as práticas questionáveis eles abandonam as críticas a elas. Resolvido.

Pense duas vezes, portanto, quando ouvir alguém orgulhando-se de não ser hipócrita. Pode ser que ele seja apenas um defensor dos próprios vícios.

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Leitura mental

Por falar na relação entre pais e filhos, a história registra outra forma de os pais favorecerem os filhos, mas de uma forma bem menos amistosa. O envenenamento. Durante muito tempo esse foi um crime fácil de realizar e difícil de detectar. No livro O pó do herdeiro – Uma história sobre envenenamento, assassinato e o início da ciência forense moderna (Record, 2019), a escritora Sandra Hempel Quando mostra que quando o arsênico virou moda na Inglaterra do século XIX o medo de ser envenenado ganhou ares de epidemia, lançando os cientistas da época numa corrida para deter o problema que deu início à moderna ciência forense.