Karolina Grabowska, Pixabay

 

A pouco menos de um mês para o início das festas de fim de ano muitos se perguntam como encarar os eventos de forma segura. Será preciso cancelar tudo? Ou vamos fingir que não existe pandemia e curtir pelo menos esses momentos?

Calma! Não precisamos entrar novamente nesse raciocínio binário “ou isso ou aquilo”. Se você está apegado a um dos extremos nem perca seu tempo lendo esse texto. Mas se quer pensar sobre a situação com o que acumulamos de conhecimento até aqui, vamos em frente.

Em primeiro lugar, é preciso saber o que se descobriu sobre a transmissão do vírus. Embora muita gente ainda dê banho de álcool em tudo que chega da rua, o risco de contágio por contato não é nada comparado ao risco respiratório. Esse, ao contrário do que se imaginava no começo, não se dá apenas por contato próximo com as gotículas de saliva de alguém contaminado, mas também pelo acúmulo de partículas suspensas no ar, como uma espécie de fumaça carregada de vírus. É por isso que a maioria das transmissões é feita por uma minoria de doentes, em eventos de superespalhamento. Ambientes fechados, mal ventilados, lotados, com contato próximo e prolongado são os lugares em que a doença se propaga. Muitas festas de fim de ano eram assim. Mas o fato de terem que mudar não significa que precisem ser extintas.

Com isso em mente, vamos às variáveis que devem ser consideradas:

  • Número de pessoas: um número elevado de pessoas não apenas aumenta a proximidade entre elas, como aumenta a quantidade gente respirando junto, o que se torna um risco quando temos alguém contaminado sem saber. A boa notícia é que numa pesquisa informal que fiz em minhas redes sociais, 2/3 das famílias reúne menos de 15 indivíduos nas festas (e só 20% juntavam 20 ou mais pessoas).
  • Tamanho do ambiente: quando menor o lugar, maior a proximidade entre as pessoas e mais concentrado fica o ar expirado, aumentando o risco de exposição aos possíveis vírus flutuando por ali.
  • Ventilação: como o ar é o principal meio por onde circula o vírus, quanto mais ele for renovado, mais diluídos ficam os vírus que por acaso estiverem sendo expelidos, aumentando a segurança.
  • Comportamento: quem está contaminado transmite os vírus sobretudo pela expiração; quanto mais intensa e frequente ela for, maior a quantidade de vírus expelido e maior o risco de contágio. Em repouso expiramos menos do que em exercício. Falar baixo é mais seguro do que falar alto; falar alto é menos arriscado do que gritar, e gritar é tão ruim quanto cantar.
  • Máscaras: quanto melhor a qualidade, mais seguras, já que elas são capazes de reduzir tanto a quantidade de vírus exalados como inalados. As máscaras cirúrgicas filtram mais de 90% das partículas em suspensão (aerossóis), mas mesmo máscaras caseiras como as que combinam tecidos como algodão e flanela, têm eficácia de mais de 80% . Desde que usadas de forma correta, claro, cobrindo boca  e nariz e bem ajustadas ao rosto.

Juntando essas informações podemos pensar numa receita para montar nossa ceia personalizada. Felizmente cientistas do Massachusetts Institute of Technology criaram uma ferramenta, disponível nesse site, para você fazer suas contas. Ali é possível mexer com essas variáveis estimando o risco em cada situação.

Por exemplo: num ambiente de 50 metros quadrados com as janelas fechadas é seguro que dez pessoas se reúnam por apenas 27 minutos se estiverem com máscaras de tecido simples. Mas abra as janelas, acrescente um ventilador e distribua máscaras cirúrgicas que custam menos de R$1,00 para cada convidado e essas mesmas 10 pessoas podem ficar ali por 3 horas. Troque essa máscara por uma equivalente à N95 e mova os convidados da sala para o quintal ou para a laje e praticamente não há limites para o número de pessoas ou duração da festa.

Claro que o mais difícil é convencer as pessoas a ficar de máscara o tempo todo e lembrar de não se aproximarem demais. Mas isso é muito mais fácil do que convencê-las a cancelar o Natal.

Além disso mais alguns ajustes são necessários, já que um dos grandes riscos na ceia é as pessoas tirarem as máscaras todas ao mesmo tempo para comer, sentando-se apertas à mesa justamente nesse momento. Para evitar tal risco o ideal é fazer uma espécie de revezamento, com grupos menores de pessoas comendo de cada vez, sempre tentando manter a distância de 1 a 2 metros nesses momentos sem máscara.

Não é preciso ser negacionista para querer celebrar as festas de fim de ano, como não é preciso ser exagerado para pedir que mudanças sejam feitas. O que é preciso é querer pensar sobre o assunto, calcular os riscos e decidir em família o que podemos ou devemos fazer. Para isso que serve a ciência.

 

M. Z. Bazant and J. W. M. Bush. Beyond Six Feet: A Guideline to Limit Indoor Airborne Transmission of COVID-19, , medRxiv preprint (2020).

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Steven R. Lustig, John J. H. Biswakarma, Devyesh Rana, Susan H. Tilford, Weike Hu, Ming Su, and Michael S. Rosenblatt. Effectiveness of Common Fabrics to Block Aqueous Aerosols of Virus-like Nanoparticles. ACS Nano 2020, 14, 7651−7658