Acho que todo pai ou mãe em algum momento da vida considerou que os filhos estavam sendo mal agradecidos. Acostumados à vida boa que levam – usualmente mais fácil do que foi a dos pais – eles parecem não ter noção do trabalho por trás de tudo aquilo, como se seus privilégios fossem um direito natural e não resultado de um esforço pelo qual eles deveriam ser gratos.

Acontece que mesmo depois de adultos, com ou sem filhos, todo nós temos tendência a certa ingratidão. Somos rápidos em notar as coisas ruins que nos acontecem, revoltando-nos contra elas, mas acreditamos que as coisas boas não são mais do que obrigação do mundo que nos cerca.

Tenho pensado nisso por conta de uma campanha de final de ano que estou participando, focada em gratidão. Como dezembro traz consigo um acúmulo de significados, somando a perspectiva do fechamento de um ciclo à rica simbologia do Natal, é muito natural esse movimento de reflexão sobre o ano que se encerra. E se nessa hora é tentador pensar nos percalços ocorridos, de tudo aquilo que deu errado, cada vez mais fica claro que se esforçar no sentido oposto, lembrando tudo o que deu certo, pode ser muito benéfico.

Adotar uma postura ativa, trazendo à consciência a sensação positiva de ter recebido coisas boas e voluntariamente sendo grato por elas é fonte comprovada de bem estar. Em primeiro lugar porque quando fazemos esse exercício regularmente nós reajustamos a sintonia de nosso radar afetivo. O ser humano traz embutida a mania de prestar atenção no que é negativo, até como um mecanismo de proteção e defesa. Com isso passamos muito tempo olhando para o lado ruim das coisas, o que obviamente não deixa ninguém feliz. Mas quando nos dispomos a repetidamente tomar nota das coisas boas que nos cercam, mesmo pequenas e em princípio insignificantes, aos poucos essa sintonia negativa vai sendo modificada, tornando-se mais fácil ver o lado bom da vida.

Além disso, ser grato evita que nos tornemos como os filhos (muito) mimados. O ser humano tem a tendência de se acostumar rapidamente com as coisas boas, logo deixando de ter prazer com as coisas. É a chamada esteira rolante hedônica – parece que temos que correr atrás da felicidade o tempo todo sem conseguir avançar em direção a ela. Após um breve momento de alegria por alguma conquista, logo aquilo já não parece nada demais, e nos pomos atrás de outra coisa, reiniciando o ciclo.

Mas quando prestamos atenção às coisas boas que nos ocorrem e ativamente somos gratos por elas reduzimos essa adaptação hedônica, evitando a rápida perda de alegria. Isso acontece porque quando agradecemos nós declaramos saber que aquilo de bom poderia não ter acontecido, o que obviamente aumenta bastante o valor que lhe damos.

Sintam-se então todos convidados para fazer crescer essa onda de gratidão e bem estar. Como todos os anos, 2018 foi uma mistura de coisas positivas e negativas – e assim também será 2019. Que ser grato pelo que é bom ajude a nos mantermos mais felizes, e que nos dê ânimo para enfrentar o que for ruim.

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Leitura mental

Escritor de sucesso mundial, sem medo de enfrentar polêmicas, Jordan B. Peterson é um dos psicólogos mais influentes da atualidade. Num campo tão propício a opiniões infundadas e recomendações sem base alguma, Peterson oferece no livro 12 regras para a vida : um antídoto para o caos (Altabooks, 2018) sugestões para uma vida melhor, mas totalmente baseadas em conhecimento científico sólido. Unindo o conhecimento de psicologia, evolução humana, antropologia, neurociências, ele apresenta evidências sobre aspectos como disciplina, postura, relacionamentos de forma a nos ajudar realmente a colocar um pouco de ordem no caos que nos circunda.