Para os que pensaram que eu abandonei minha resolução de comer melhor nesse ano, gostaria de dizer que sigo firme. Sim, tive dificuldades, descobri que estava silenciosamente me sabotando ao diagnosticar gordura no meu fígado, mas consegui encontrar uma dieta que me pareceu adequada para mim, além de cientificamente sólida.

Voltou ao assunto agora que o tema da Semana Nacional de Ciência e e Tecnologia é “Ciência alimentando o Brasil”. Embora um dos desafios para a ciência esteja na ponta da produção de alimentos, garantindo segurança alimentar para todos, na ponta oposta está a dificuldade em estimular as pessoas a comer bem, mantendo uma dieta saudável. A Organização Mundial da Saúde comprovou, no seu estudo global sobre o peso das doenças, que a alimentação inadequada é o principal fator de risco de morte e incapacidade no mundo. Comer melhor não é difícil só para mim ao que parece.

Na última vez que escrevi sobre minha dieta confessei que vinha, sem perceber, contrabandeando carboidratos para dentro do meu cardápio, escondidos de minha consciência. Perceber isso foi duro, mas também fundamental, pois a partir de então ficou impossível mentir para mim mesmo no que diz respeito aos carboidratos e açúcares.

Acontece que ao prestar atenção redobrada a tais ingredientes me dei conta de que era fácil me distrair e consumi-los em quantidades além do saudável. Desde a fabricação, passando pela distribuição e terminando no ponto de venda, toda a cadeia de produção de alimentos é favorável à alimentação inadequada. Quanto menos saudável é uma comida, mais barata ela parece ser, além de mais amplamente encontrada e mais prática de ser consumida. Alimentos saudáveis tendem a ser mais caros, mais trabalhosos e menos disponíveis nos pontos de venda. Por mais força de vontade que tenhamos, uma hora a gente cansa de nadar tanto contra a maré. Não por acaso hoje existe uma tendência no mundo de que pessoas mais pobres sejam mais obesas, ao contrário do que sempre ocorreu na história.

Mas ao longo desse ano conversamos também que, do ponto de vista comportamental, tudo o que dificulta um comportamento reduz sua ocorrência. Pensando nisso há várias propostas para inverter a matriz de incentivos que nos leva a comer mal, e uma delas é sobretaxar alimentos pouco saudáveis. Sim, mais impostos. Todo mundo, e o brasileiro com bons motivos, odeia impostos. Mas por isso mesmo eles podem ser uma boa ideia: aumentando o preço de alimentos pobres em nutrientes, ricos em carboidratos e açúcares, poderíamos desviar o comportamento dos cidadãos, inclinando-os para escolhas mais saudáveis. Ano passado pesquisadores americanos publicaram uma revisão sistemática da literatura científica sobre o tema. Encontraram setenta e oito estudos ao redor do mundo, e juntando seus resultados concluíram que de fato sobretaxar comidas não saudáveis, no mínimo 10 a 15%, melhora a qualidade da alimentação populacional.

Pois é, desculpe ser eu a propor mais impostos. Mas é pela saúde. Minha, sua, de seus filhos e de todo mundo.

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Niebylski, M., Redburn, K., Duhaney, T., & Campbell, N. (2015). Healthy food subsidies and unhealthy food taxation: A systematic review of the evidence Nutrition, 31 (6), 787-795 DOI: 10.1016/j.nut.2014.12.010