Essa semana rodou pelas redes sociais uma entrevista com o psiquiatra Allen Frances, denunciando o tão falado excesso de diagnósticos em psiquiatria. Frances, que foi líder da quarta edição do Manual Estatístico e Diagnóstico (DSM IV), perdeu o posto na edição seguinte (DSM 5), passando então a criticar o livro, e por extensão toda a Psiquiatria. A ironia é que as críticas que ele dirige à quinta edição já eram metralhadas contra aquela que ele liderou.

Mas tudo bem, não pretendo argumentar ad hominen, e em vez de desmerecer as críticas, vale a pena analisá-las com cuidado. Historicamente a Medicina em geral – e a Psiquiatria em particular – já erraram na mão, por isso é bom prestar atenção sincera à oposição.

A base da crítica é que a Psiquiatria está diagnosticando como patológicos comportamentos normais. Crianças arteiras ou mal-educadas viram portadoras de TDAH; viúvas enlutadas são chamadas de depressivas; e aquele seu cunhado que é “de lua” vira um bipolar na mão da interesseira indústria farmacêutica. Esse é um risco real, mas está muito longe de ser a regra. Uma leitura superficial dos critérios diagnósticos pode levar pessoas incautas (e – vá lá – médicos mal intencionados) a tais conclusões. Mas quem conhece a Psiquiatria de verdade, seja como médico ou como paciente, sabe que não basta alguém ter características diferentes para ser doente. Nem todo sofrimento é sinônimo de transtorno mental (a maioria não é). Para a Psiquiatria séria e bem feita, são os comportamentos disfuncionais, que prejudicam seriamente a pessoa em suas relações pessoais, profissionais, e que fogem do seu controle que podem ser considerados patológicos. Qualquer um que tenha visto pessoas sofrendo por não conseguirem se controlar, mesmo com toda boa vontade do mundo, sabe do que se trata um transtorno mental para valer.

Não quero dizer que não haja abusos. Concordo com Frances que há gente sem doença recebendo medicamentos de forma desnecessária. Os motivos não se restringem às pressões da gananciosa indústria farmacêutica. Comodidade dos médicos e imediatismo da população contribuem para isso. Mas para mim o principal fator é o desenvolvimento de drogas mais seguras e com menos efeitos colaterais. É fato que quando não há doença pouco fazem os remédios. Mas para quem quer se livrar logo de um sofrimento qualquer, embora o benefício desses novos medicamentos não seja claro, o custo associado a seu uso cai drasticamente, induzindo médicos e paciente a optar por correr o risco. Existem abusos. Só que na realidade do Brasil, e mesmo do mundo, o preconceito ainda é tão grande e o acesso à saúde tão precário, que de forma geral tem muito mais gente doente de verdade sem tratamento do que doente de mentira se tratando.

Com certeza gastamos mais deixando pessoas doentes à sua própria mercê do que dando remédios (que não vão funcionar) para quem não precisa.

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Dr. Philippe Pinel no Salpêtrière, 1795