Divulgação/Disney

Tudo aconteceu muito rapidamente. Nós estávamos na estrada nessas férias, indo à praia, tarde da noite para evitar o trânsito. O plano funcionou – a estrada estava vazia – a não ser por um disco voador cheio de pequenos alienígenas em trajes de banho.

Opa. Se você estranhou fim do parágrafo anterior, seu cérebro parece bem. O susto acontece porque quando ouvimos uma narrativa a única maneira de compreendê-la é acreditar. Nós tomamos como verdade o que está sendo dito para criar as imagens em nossa mente, dando coerência à história. Enquanto isso paralelamente vamos comparando as informações com o que já sabemos sobre o mundo, com o todo de nossos arquivos, checando a plausibilidade. Então quando surgem ETs de biquíni há uma incongruência entre a história que parecia real e algo que não faz sentido diante de nosso conhecimento acumulado. O parágrafo não passa no teste de realidade.

Essa crença temporária é o que nos permite desfrutar obras de ficção. É uma “fé poética”, como a chamou o poeta Samuel T. Coleridge – ao sabermos que é tudo de mentira abrimos mão do teste de realidade e mantemos uma crença especial mesmo quando a narrativa não tem amparo em nossa experiência de mundo. Assumimos que um homem pode voar ao ver Superman; que vampiros existem na série Crepúsculo; que bruxaria se ensina em escolas etc.

Mas eis que chega Frozen 2. E a gente vai ao cinema preparado: acreditaremos que existem reinos distantes, princesas com poder de congelar, bonecos de neve com vida, homens que falam por renas. A “fé poética” está acionada para embarcarmos na história. Até que de repente – e atenção para o leve spoiler – surgem povos da floresta, espíritos dos elementos, elo entre a magia e a realidade, gigantes de pedra. Tudo meio que aparecendo do nada, sem maiores explicações, apenas para fechar as pontas de história.

Eu me senti um pouco como o leitor diante dos ETs em roupas de banho do parágrafo inicial. Porque se obviamente não fui ao cinema buscando aplicar o teste de realidade a Frozen 2, por outro não estava preparado para que o desenho extrapolasse os limites do universo que me havia proposto – e no qual eu estava totalmente disposto a acreditar.

Não sei como será a reação do público, mas embora o filme conte uma história interessante e com começo, meio e fim, de meu ponto de vista ele falhou em manter a coerência interna com o mundo da Frozen. O que, ao menos para mim, foi frustrante.