Como escrevi no último domingo, a maioria das assombrações se alimentam da nossa atenção. Quanto mais olhamos para elas, mais elas ficam poderosas – nós mesmo lhes damos a força. Mesmo quando existem de verdade, quanto menos lhes damos bola menos influência elas exercem em nossas vidas.

O suicídio é um problema real, que não pode ser ignorado, mas que talvez tenha recebido uma atenção inadequada nos últimos tempos. Sinto que saímos de um extremo no qual nós ignorávamos o problema para outro em que lhes inflamos a importância.

Durante décadas o tema foi tratado como tabu não só na mídia, como nas salas de aula e mesas de jantar. Ninguém queria tocar no assunto. Com o tempo – e sobretudo com a divulgação inevitável em épocas de redes sociais – resolvemos conversar sobre ele; mas acho que erramos um pouco a mão. As recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) para os jornalistas – amplamente desconhecidas – recomendam que, ao se noticiar um caso, evitem-se demonstrações dos métodos utilizados, eventuais imagens da pessoa falecida, e também que se evite especular sobre suas causas. Afirmar que fulano se matou por causa disso ou daquilo é temerário por dois motivos. Primeiro porque é muito difícil reduzir comportamentos tão extremos a explicações tão simples. Mas mais do que isso, porque outras pessoas atravessando crises semelhantes podem também passar a contemplar a morte como solução.

Eu desconfio que de tanto falarmos que os jovens estavam se matando, adotando um tom alarmista – igualmente contraindicado pela OMS – alguns deles podem ter sido influenciados, incorporando esse comportamento como um recurso para lidar com o sofrimento.

Tudo bem, foi importante sair das sombras, mas já falamos muito sobre morte. Creio que seja momento de focar na vida. Assim como as melhores estratégias para prevenção de uso de drogas não é ficar falando delas, mas treinar as habilidades sócio-emocionais e cognitivas dos jovens, não é necessariamente falando da morte que vamos evitá-la.

Há pouco mais de um mês está no ar a ferramenta Algoritmo da Vida (disclaimer: eu fui consultado pelos criadores no início do seu desenvolvimento). A revista Rolling Stone assina o projeto criado pela agência África, cujo objetivo é identificar pessoas em risco.  Um algoritmo localiza frases e expressões preocupantes postadas no Twitter (“não quero essa vida”; “estou muito sozinho”; “não aguento mais viver” etc.), e os encaminha para uma equipe treinada para validar a análise automatizada. Uma vez confirmado o conteúdo um perfil entra em contato com o usuário, interage com ele transmitindo mensagens positivas e por fim recomendando o CVV, serviço de atendimento de crise especializado nessas situações (cvv.org.br , telefone 188).

A decisão de atentar contra a própria vida raramente é definitiva – pessoas atravessando tais crises são ambivalentes, não querem mais viver mas nem sempre desejam morrer; pensam na morte mas prefeririam outra solução e assim por diante. Nesses momentos uma palavra de conforto, esperança ou simplesmente empatia pode ser suficiente para afastar a pessoa do suicídio, dando-lhe tempo para conseguir ajuda ou até para que a crise melhore. Isso deixa claro como uma medida dessas pode fazer diferença.

Estimulando as pessoas a seguir em frente a despeito dos sofrimentos, o Algoritmo da Vida alinha-se com um novo mote que desejo para a prevenção do suicídio, segundo o qual a melhor maneira de evitar a morte sem sentido é dar um sentido para a vida.

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Leitura mental

No final do ano passado a Editora Unesp publicou o livro História do suicídio, de George Minois. Minois é historiador, cujo foco principal é a história das mentalidades religiosas. E por que ele estaria se metendo a falar de suicídio, pode-se perguntar. Como o próprio livro responde, é porque a questão da morte autoinfligida, antes de ser considerada um assunto médico, era um problema sociológico, e ainda antes disso tratava-se de um problema religioso. O livro concentra-se no período que vai da Idade média ao Romantismo, tratando do problema a partir do século XX apenas num epílogo. No entanto, para compreender porque, mesmo após ter rasgado o véu de silêncio que o cobria, ele continua tão carregado de simbolismos, mexendo tanto com nosso imaginário, é preciso acompanhar Minois em seu erudito passeio ao passado.