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Um caçador de falácias não tem sossego um minuto hoje em dia. Basta se distrair um segundo que uma delas tenta passar escondida, sorrateiramente se esgueirando no meio de argumentos sólidos.

Lembrando: falácias são formas de argumentação que tentam dar aparência de um raciocínio sólido e embasado, mas que quando examinadas mais a fundo mostram suas incoerências internas. Nos tempos corridos que vivemos, nos quais os assuntos se atropelam conforme deslizamos as telas, é mais complicado ainda parar e fazer essa análise, o que facilita a vida de quem argumenta de forma falaciosa. É como se um convidado malandro chegasse numa festa movimentada com um presente ruim, mas embalado em lindo embrulho, com papéis de presente sofisticados e laços chamativos. O anfitrião, afogado num mar de presentes, não tem tempo de abrir e apreciar cada um, acreditando que aquele convidado caprichou no regalo.

Daí a importância de treinar a mente para identificar as falácias. E para isso nada melhor do que conhecê-las e chamá-las por seus nomes – com isso vamos nos habituando a captar suas estratégias sub-reptícias.

A mais recente que tive notícia foi a fala do Ministro do Meio Ambiente durante a COP-26. Ele afirmou que “onde existe muita floresta também existe muita pobreza”. (O argumento pode ser simplesmente uma mentira se a premissa não for verdadeira – por exemplo, se os dados formais mostrarem que não existe essa associação).

Ainda que seja verdadeira a premissa não se pode estabelecer uma relação de causa e consequência, como se fosse a presença da floresta que trouxesse pobreza (e fosse preciso desmatar para gerar riqueza, como fica implícito). Essa forma de argumentar é chamada de Efeito conjunto, na qual duas situações são apresentadas como se uma causasse a outra, mas na verdade elas têm por trás uma terceira causa em comum.

É evidente que o desmatamento não pode mais ser defendido como uma forma de se desenvolver um país – hoje em dia é exatamente o contrário. Mas empacotada numa falácia, é o tipo de ideia que pode acabar convencendo. E com perdão do trocadilho, quem não parar para abrir tal embrulho, pode acabar embrulhado.