Que o mundo é um lugar cada vez mais propício aos nerds todo mundo sabe – nós mesmos já conversamos sobre isso antes. Aproveitando a proximidade do Dia do Orgulho Nerd, celebrado dia 25 de maio (data da estreia de Star Wars, em 1977) – também chamado de Dia da Toalha (em homenagem ao escritor Douglas Adams, do Guia do Mochileiro das Galáxias) – resolvi recomendar alguns dos mais interessantes lançamentos recentes da ficção científica no país. Embora esse gênero seja frequentemente associado ao universo geek, no atual zeitgeist que favorece o florescimento de traços nerds mesmo em que não se assume como tal, a ficção científica – de mãos dadas com sua prima, fantasia – abandonou o gueto e domina os maiores sucessos do cinema, TV e literatura e cultura pop em geral. O que é excelente, pois ao nos fazer pensar em realidades alternativas essas obras nos forçam a refletir sobre a realidade que estamos construindo.

 

Lançado no ano passado, Kindered : laços de sangue, é uma das ficções científicas mais improváveis que poderíamos imaginar. Conta a história de uma mulher negra que, na década de 1970, passa a viajar no tempo involuntariamente, indo parar no século XIX, no sul dos Estados Unidos escravocrata. Ela descobre que é trasladada para o passado a cada vez que um senhor de escravos – que é seu antepassado – está em risco de morrer. Se não salvar sua vida, ela mesma pode deixar de existir. Sem adotar um tom panfletário, a grande dama da fição científica,  Octavia Butler (ela mesma negra de origem humilde) propõe um exercício de reflexão profundo sobre a ambiguidade que significa ser humano e a dificuldade de conciliar amor, ódio, empatia e indignação. Às vezes ao mesmo tempo.

 

 

Um dos autores mais interessantes, considerado mestre do gênero, e talvez o mais adaptado para as telas de todos os tempos, é o americano Philip K. Dick. Dois lançamentos vêm ampliar sua obra disponível em português. A editora Aleph, que faz um excelente trabalho de edição da extensa bibliografia de Dick, lançou recentemente o Sonhos elétricos, reunião de dez contos que deram origem à série homônima na plataforma Amazon Prime. São histórias cheias de reviravoltas que aliam competência narrativa a profundidade reflexiva, nos levando a grandes questões. O que nos faz humanos? Qual o propósito do mundo? Como saber o que é real? Esse, aliás, é o tema central de O tempo desconjuntado, lançamento da Suma programado para junho. No romance acompanhamos a crescente paranoia do protagonista enquanto Dick leva a dúvida quanto ao que é real às últimas consequências. PKD sendo PKD para nosso deleite.

 

Em 2018 comemoramos meio século do lançamento do filme 2001, Uma odisseia no espaço. O diretor Stanley Kubrick (disclaimer – um dos meus preferidos), que já passeara por diferentes estilos, gostaria de fazer o filme definitivo de ficção científica. Uniu-se então a outro dos grandes mestres de todos os tempos, o escritor Arthur Clarke, e – o que muitos não sabem – desenvolveram concomitantemente o projeto do filme e do livro. Em comemoração a esses cinquentenário editora Todavia lançou esse ano 2001:Uma odisseia no espaço  – Stanley Kubrick, Arthur C. Clarke e a criação de uma obra-prima. Nele o fotógrafo e escritor Michael Benson reúne entrevistas, bastidores e imagens dos settings para ao mesmo tempo documentar, reportar e analisar essa obra seminal.

 

 

Nem só de futuro ou de viagens no tempo vive a ficção científica. Às vezes uma viagem no espaço é que basta para nos levar a um universo paralelo. Na graphic novel Neurocomic: A caverna das memórias , lançada pela editora Darkside esse ano, o neurocientista e cartunista Matteo Farinella se uniu a outra neurocientista, Hana Roš, para ilustrarem – literalmente – o cérebro humano. Na história o protagonista se vê perdido numa floresta de neurônios, e começa uma jornada na qual encontrará pioneiros do estudo do cérebro e seres excêntricos que explicam da morfologia cerebral aos efeitos do álcool, dos impulsos elétricos que comunicam os neurônios à ilusão de realidade (de novo ela) que o cérebro cria para conseguirmos viver tranquilamente.

 

E para quem quiser saber um pouco mais sobre esse gênero – muito mais, para dizer a verdade – em A verdadeira história da ficção científica : do preconceito à conquista das massas, lançado agora pela Seoman, o escritor Adam Roberts traça um panorama extenso da ficção científica, num arco histórico que se estende da Grécia Antiga – onde a ficção não era a rigor científica mas já dava pistas de onde chegaria – até o século XXI, quando o gênero se tornou indiscutivelmente mainstream. Mary Shelley, H. G. Wells, Júlio Verne, Isaac Asimov, Ray Bradbury, Douglas Adams e tantos outros, representantes dos mais variados subgêneros da ficção científica, são apresentados e discutidos nesse que é sem dúvida um dos mais completos livros sobre o tema em português.

 

E um feliz Dia do Orgulho Nerd para todos.