Fazia tempo que eu não tinha férias tão desconectadas. Avisei que estaria fora, resisti a responder e-mails, até no Whatsapp deixei o alerta de que estaria “off”. Resultado: descansei como há muitos anos não conseguia. Interessante que não precisei desligar o celular ou me ausentar totalmente das redes sociais. Continuei navegando pela internet, e confesso que não deixei de dar uma olhada em meus e-mails. A diferença foi a postura que adotei diante dessas tecnologias.

Tornou-se um lugar comum falar sobre como nós abusamos das redes sociais e como elas borram as fronteiras entre o trabalho e o lazer. Que com celulares em mãos nos afastamos das pessoas e nos tornamos sedentários. Tudo verdade. A solução, no entanto, ainda está em construção – trata-se de um problema novo, afinal. Há quem proponha que o remédio seja uma espécie de jejum, uma abstenção autoimposta – ou programada nos próprios aparelhos – obrigando-nos à desconexão forçada.

Sinceramente, não tenho muita esperança que isso seja possível. Não questiono os malefícios dos abusos online. Mas assim como fazer dieta não cura compulsão alimentar (e pode até agravá-la), talvez a restrição tecnológica não seja o melhor caminho. Será que não é possível usá-la de forma saudável?

Não digo que tenha encontrado a resposta definitiva, mas nos últimos dias em que eu ensinei minha filha a andar de bicicleta, disputei dezenas de partidas de jogos de tabuleiro com minha esposa, aprendi com meu filho a fazer nós de marinheiro, cozinhei para a família, li alguns livros e a até pratiquei uma manobra de parkour (confira nas redes socias, se duvida), paradoxalmente estive também muito ativo no mundo virtual. Registrei, postei e compartilhei muita coisa. Como estive tão presente no mundo real e sem precisar abdicar do mundo virtual?

Justamente porque tentei integrar essas duas esferas. Nós ainda dividimos a vida em dois universos, o real e o virtual. O problema é que, pensando dessa forma dicotômica, acabamos por ter atitudes diferentes nos dois lugares: somos educados face a face mas agressivos online; economizamos na lojas e esbanjamos sites; e tiramos férias no mundo real enquanto trabalhamos no virtual.

De alguma forma – provavelmente por estar tão cansado que não tinha alternativa – nessas férias acabei com essa dicotomia. Mas em vez de deixar o trabalho do mundo virtual interromper minhas férias reais fiz o contrário e enfiei no meu celular descanso e diversão wi-fi abaixo.

Pode não ser é uma solução universal ou definitiva. Mas para essa temporada funcionou. Quem sabe não seja possível incorporar um pouco dessa lição em nosso dia-a-dia?

 

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Jogos mentais

Se teve uma coisa que fiz para valer nesses dias foi aproveitar para me divertir com jogos offline. O campeão de audiência da temporada foi sem dúvida o Invasores do mar do norte. Lançado no Brasil em 2018 pela editora Meeple Br, trata-se de um jogo ambientado no universo Viking. Os jogadores ganham pontos aos saquear portos, fortalezas, monastérios, em busca de fama e espólios de guerra. Para se lançar ao mar, contudo, é necessário contratar tripulação e comprar provisões. O problema é que nas invasões a provisão é consumida, e frequentemente alguém da tripulação morre. É preciso então voltar à aldeia, para recomeçar o ciclo. A dinâmica é fácil de compreender, mas aprimorar as estratégias, é aí que está a diversão.