Todo cuidado é pouco ao analisar o crime ocorrido em São Paulo na madrugada desta segunda-feira (05/08. Um casal de policiais foi encontrado morto em sua casa junto com o filho, além da mãe e da irmã da mulher. A principal hipótese da polícia é que o crime tenha sido cometido pelo filho. Isso porque tudo indica que os primeiros assassinatos ocorreram na madrugada, mas pela manhã o rapaz foi à escola, voltando para casa de carona com o pai de um colega. Posteriormente foi encontrado na cena do crime junto a uma arma e com um tiro na cabeça. Além disso, não havia sinais de arrombamento na casa e foi descartada pela polícia a hipótese de a chacina estar ligar a facções criminosas.

Ainda assim, devem-se esgotar as possibilidades alternativas antes de se firmar que a autoria foi do rapaz.

O parricídio – assassinato do pai, pais ou outros ascendentes – é um crime bastante raro, respondendo nos EUA por apenas 2% dos homicídios. O familicídio – quando vários membros da família são mortos num mesmo evento – é ainda mais raro, e pode ser considerado uma subcategoria de assassinato em massa (assassinato de quatro ou mais pessoas num mesmo incidente cometido por um indivíduo). Só o fato de ser algo tão raro já recomendaria cautela.

Mais atípico ainda é o perfil do perpetrador. Embora os parricidas sejam geralmente filhos homens com mais de 12 anos – caso do rapaz em questão – o suicídio após o crime é raro, e a principal motivação é a existência de grandes conflitos domésticos, como abusos físicos e sexuais, ou interesses financeiros, elementos que não parecem presentes no caso. Já nos familicídios, o assassino é quase sempre um homem casado, mais velho, portador de arma de fogo e com histórico de transtornos mentais, diferente do perfil do garoto.

A presença de doenças crônicas, como a fibrose cística de que o jovem era portador, é um conhecido fator de risco para suicídio de forma geral. No caso de adolescentes em particular a presença de arma de fogo em casa aumenta trinta vezes a chance deles se matarem. Diante disso é até possível imaginar que o rapaz tenha planejado o suicídio e decidido matar a família para poupá-los da dor de sua morte – motivo não raras vezes alegado no familicídio. Mas é algo tão raro – e tão extremo – que não podemos admitir tranquilamente essa versão sem antes afastar outros cenários possíveis.

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Lisieux Elaine de Borba Telles, Hélvio Carpim Correa, & Paulo Blank (2013). Familicide attempt: case report of a forensic psychiatric evaluation Revista de Psiquiatria Clínica, 40 (3) DOI: 10.1590/S0101-60832013000300011
Barros DM (2013). Tentativa de familicídio: relato de caso de perícia psiquiátrica forense (comentário) Revista de Psiquiatria Clínica, 40 (3)