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Nada desculpa quem vai à frente de um hospital protestar contra o aborto de uma menina de dez anos que engravidou após quatro anos de abuso sexual. Acrescentar dor ao sofrimento já incalculável da garota é uma manifestação do mal. É a maldade em ação. O fim declarado de salvar uma vida nem chega perto de expiar a culpa de quem, invocando supostas boas intenções, contribui para tornar o mundo um lugar pior.

Acho que isso basta para deixar claro que não concordo – ao contrário, condeno – a postura das pessoas que montaram piquetes tentando impedir a equipe médica de realizar o aborto. Isso não me impede, no entanto, de em vez de me juntar à turba que grita – aumentando o barulho e reduzindo a reflexão – procurar entender o que se passa com elas.

Não consigo me convencer facilmente que todos ali reunidos são pessoas essencialmente más, vis, desalmadas. Como então puderam aderir a um movimento que é a concretização do mal?

Quando estão em grupos as pessoas costumam assumir posturas mais radicais do que suas crenças originais. Essa tendência a caminhar em direção aos extremos é chamada de polarização de grupo, e afeta não apenas as opiniões, mas as escolhas e até os comportemos das pessoas. Sabe quando vemos nos filmes o juiz proibindo os jurados de conversarem sobre o caso que estão julgando durante os intervalos? É para evitar a polarização de grupo – estudos mostram que quando deliberam sobre o réu os jurados acabam sendo inclinados pelo coletivo.

E não para por aí: há evidências que grupos não presenciais, mediados por telas, levam a polarizações até mais extremas do que encontros tradicionais. Agora imagine o que acontece quando quem já tem uma postura tendendo a um polo se encontra com outras – dezenas, centenas, milhares – que vão para a mesma direção em grupos de Whatsapp, Telegram ou que tais. De repente pessoas anti-aborto que talvez considerassem um exagero ir sequer a uma passeata se vêem na frente de um hospital xingando profissionais de saúde.

Sempre bom reforçar: isso não justifica em nada essa atitude. Mas é preciso tentar compreendê-la. Até porque, não sei se já deu para perceber, mas gritar de volta só empurra as pessoas ainda mais para seus polos.

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Leitura mental

Bem a propósito dessa discussão vem o lançamento do livro Sobre a natureza humana (Record, 2020), do intelectual britânico Roger Scruton. Dialogando com as teorias mais em voga que procuram explicar nossos comportamentos, como as da psicologia evolutiva – da qual sou declarado simpatizante – Scruton mostra que não somos seres exclusivamente biológicos. Arte, cultura, religião somam-se na receita do ser humano montando um amálgama que não pode ser compreendido exclusivamente olhando-se para nossa história evolutiva.