Excelentíssimo presidente Jair Bolsonaro,

Tomo a liberdade de escrever a Vossa Excelência com uma bandeira branca em punho. Tenho visto muita beligerância por aí, mas quem é da caserna sabe que por mais que se brigue na guerra, são os diálogos que as encerram definitivamente. Então, com bandeira branca erguida, proponho mediar um diálogo entre o seu governo e os cientistas.

É bem verdade que, enfurnados em seus laboratórios, os cientistas muitas vezes perdem a visão da realidade maior que os cerca. Criou-se até um clichê para descrever essa atitude: eles ficam em torres de marfim. Mas não é preciso ficarmos bravos com eles – não é de propósito. É que eles podem ficar tão absorvidos por suas pesquisas que mal se lembram do resto. Cada vez mais cientistas, no entanto, têm percebido que isso é ruim e hoje em dia aceitam um convite para um bom papo, vale a pena tentar.

Por outro lado, sejamos sinceros: os políticos às vezes caem no risco oposto. Principalmente em cargos executivos de grande responsabilidade, como a presidência, existe tanta pressão para tomar decisões em assuntos tão diferentes e tão rapidamente, que muitas vezes os políticos adotam estratégias mentais que ajudam na hora, mas que nem sempre são adequadas à realidade. Também há um termo famoso para isso: o tal do viés, dentre os quais o viés ideológico é apenas um exemplo. Assim como os cientistas, muitos políticos também têm despertado para esse problema, e não negam uma conversa que lhes areje um pouco as ideias. E só por isso resolvi escrever.

O que acontece é que o cérebro humano realmente é cheio de vieses. Nós tememos o que é diferente. Queremos sempre soluções rápidas. Pensamos no agora e esquecemos do amanhã. Sentimos que dá para resolver as coisas pela força. Não são só os políticos que têm esses vieses, é todo mundo. E embora ajudassem as pessoas quando elas moravam na selva, hoje eles atrapalham. Vou dar um exemplo: durantes anos foi realizada uma cirurgia cardíaca porque ela parecia ajudar os pacientes, até que alguém testou pra valer e viu que ela era desnecessária. Vossa Excelência consegue imaginar o nó na cabeça dos cirurgiões que souberam disso depois de fazer centenas de operações? E que ganhavam a vida com elas? Com certeza não foi fácil aceitar as evidências (e cá entre nós, esses cirurgiões devem ter questionado bem essa história).

Agora, imagine se, em vez de ter se aberto para as evidências as sociedades médicas ficassem insistindo que aquele procedimento era útil, impedindo as pesquisas de ser publicadas ou só dando voz a quem concordasse com ele? Até hoje estaríamos abrindo o peito das pessoas inutilmente.

O método científico serve exatamente para isso: para colocar em dúvida as nossas opiniões, testá-las, e aí sim saber se elas fazem sentido. É ruim quando algo em que a gente acredita acaba sendo desmentido pela ciência. Mas quando isso acontece a coisa mais importante a fazer é dar publicidade a tais resultados, sabe por quê? Porque a ciência não é infalível, e quanto mais algo for testado, mais certeza podemos ter. Vai que aquela pesquisa que nos desagradou está errada? Quanto mais ela for questionada pelos próprios cientistas, melhor. Ou ela será derrubada, e nossa opinião estava certa desde o começo (ahá!), ou – se ela estivesse certa – pelo menos vamos dar o braço a torcer para algo testado e comprovado.

Por isso, caro presidente, não fique bravo se algumas pesquisas contrariam a sua opinião ou dos seus ministros. É assim mesmo: nossas opiniões são enviesadas. Apenas discordar dos cientistas pega mal, porque o método científico funciona muito bem (sem ele o Vossa Excelência nem  teria sobrevivido àquela facada, imagine). Mas isso não significa que se deva aceitar passivamente tudo. Faça o contrário: desafie os cientistas no campo de batalha deles mesmos. Duvide sim! Peça provas! Desafie-os a replicar os resultados!

Não comente com ninguém, mas se fizer isso, além de agradar o povo que também discorda dos resultados ainda agradará os próprios cientistas! Quem, além de um político, seria capaz de fazer isso?

Respeitosamente,

Daniel Martins de Barros