O melhor jeito de falar sobre a hidroxicloroquina é não tocar no assunto. Sim, tarde demais – se eu estiver certo, comecei mal. E por quê? Porque ao bater os olhos no nome desse remédio muitos leitores já ativam um modo de pensamento que invocam muitos pressupostos antes mesmo de saber o que vou falar. Conceitos de direita e esquerda, liberalismo e conservadorismo, que nada deveriam ter a ver com o tema, interpõe-se à leitura. E acredito que para pensarmos racionalmente sobre o país e o mundo é fundamental compreender como o uso de uma medicação pôde fugir do debate técnico e terminar refém de uma disputa ideológica polarizada.

A culpa não é da hidroxicloroquina. A culpa é da polarização.

Esse fenômeno que empurra as pessoas para posições extremas de um lado ou de outro – daí o termo, polarizadas – tem várias consequências negativas, como estimular brigas, criar dissenso, emperrar o debate. E para mim o que é mais grave: escraviza o pensamento. Sem se dar conta disso, quem se identifica de forma muito intensa com uma visão de mundo abre mão da liberdade de pensar de forma diferente. Ninguém a proíbe de forma explícita, é ela que não se permite. Uma escravidão como essa é duplamente perniciosa, porque o escravo nem sabe que foi privado de escolha.

Tudo começa quando o sujeito percebe afinidade com determinada visão de mundo – esquerda, direita, liberalismo, corintianismo, modernismo o que for – e a adota como diretriz genérica para sua vida. Até aí, isso é o que todos fazemos, conscientes disso ou não. O problema é que pensar dá tanto trabalho que acomodar-se naquela ideologia torna-se muito sedutor. Diante de qualquer situação que requeira um julgamento, uma avaliação, uma valoração moral, é muito mais confortável assumir automaticamente uma posição condizente com sua orientação ideológica do que gastar energia para destrinchar o assunto.

Essa adesão acrítica reforça progressivamente a ligação entre a identidade pessoal e uma ideologia, a ponto de que qualquer ideia de fora é despachada como incorreta, reprovável, indesejável, independentemente de seu valor.  Aceitar ideias que questionem tal visão de mundo, afinal, abala a própria identidade pessoal, o que não é tolerável. (Por isso que essas pessoas são tão afeitas a censura – é uma tentativa desesperada de manter íntegra sua autopercepção matando no ninho pensamentos que a ameacem).

E assim chegamos à hidroxicloroquina. A partir do momento que seu uso passou a ser defendido pelo presidente Jair Bolsonaro caiu nas garras da polarização. Tanto as pessoas que aceitam como as que criticam automaticamente tudo o que vem dele já sabiam o que fazer: defender ou atacar cegamente o remédio. Não importam as evidências; elas são só detalhes, casuisticamente utilizadas para justificar um lado ou outro.

A única saída para essa escravização mental é ter coragem de se perguntar: eu consigo discordar de algo que meu grupo concorde? No caso: se eu sou a favor do uso da hidroxicloroquina, existe alguma notícia me faria abandonar sua defesa? E se eu sou contrário, haveria alguma chance de passar a defendê-la?

Se sua resposta depender da posição de algum político, lamento dizer mas você se tornou um escravo.