weapon-424772_1280

fonte: Pixabay

 

Antes quase exclusividade dos americanos, os assassinatos em massa passaram a povoar o noticiário internacional. Os Estados Unidos continuam sendo campeões mundiais: segundo um site que compila os relatos oficiais de ocorrências por lá, só esse ano houve 207 eventos de tiroteios em massa no país. O último foi ontem. O penúltimo anteontem. Nesse ritmo deve ocorrer outro entre hoje e amanhã. Mas países sem cultura de violência como França e Bélgica, ou ordeiros como Alemanha e Noruega, também vêm se deparando com esse tipo de crime. E em dois casos recentes nem armas de fogo foram necessárias –  no Japão e na região da Normandia criminosos usaram facas para assassinar deficientes numa clínica e fazer reféns numa igreja, respectivamente. Parece uma espécie de epidemia, que se alastra como o zyka pelo mundo afora. Será?

Uma estratégia bem sucedida do Estado Islâmico é a oferta de uma ideologia ao mesmo tempo radical e genérica, na qual cabem diferentes demandas – da exclusão social encontrada no capitalismo às mudanças nos costumes morais em países ocidentais, do declínio na religiosidade das pessoas à falta de oportunidade para estrangeiros, da homofobia ao antissemitismo, muita gente deslocada e insatisfeita sente-se de alguma forma representada no discurso de ódio. A eficiente propaganda feita pelas redes sociais alimenta a ação desses chamados “lobos solitários”: convencidos que estão agindo em nome do Estado Islâmico, encontram nesse discurso uma justificativa para, na verdade, agirem por suas motivações pessoais. Os terroristas só têm a lucrar, já que a ideia é justamente criar essa sensação de medo generalizado, desproporcional ao risco, entre os “infiéis”. E com isso os casos vão se multiplicando.

Mas e os episódios recentes que não têm essa relação direta com o terrorismo? O estudante de Munique que atirou a esmo no shopping, o ex-funcionário de uma clínica no Japão que matou pacientes, até o bacharel em Direito na Bahia que ameaçou um ataque suicida na prova da OAB – seria coincidências pipocarem agora? Pode ser. Mas pode também ser um efeito colateral do terrorismo, que talvez nem mesmo os terroristas tenham previsto. O contágio social.

Não acho muito arriscado imaginar que, com tanta mídia em torno desse tipo de ação, esteja acontecendo uma espécie de efeito copycat. Aquele fenômeno que ocorre quando determinado tipo de crime, por ser muito divulgado, passa a ser copiado por outras pessoas, mesmo que por motivações diferentes. Pode parecer exagerado pensar que só porque viu um assassinato em massa na TV alguém será convencido a agir da mesma forma. Mas é exatamente o que acontece para pessoas que já tenham alguma tendência: eles dão-se conta de que é possível empreender atos tão extremos. Inspiram-se menos na ideologia do terror que no seu planejamento e execução. Espelham-se a forma mesmo que ignorem o conteúdo. E perpetuam o terror mesmo não sendo terroristas.

A grande armadilha preparada pelo Estado Islâmico é essa: usam a liberdade de expressão do Ocidente para atacar seus próprios valores. Transformam suas ações em notícia, que viram propaganda da causa quando divulgadas mundialmente, convencendo ainda mais pessoas a cometer crimes. Criam um ciclo que se autoalimenta e que só poderia ser interrompido se abríssemos mão dos valores que defendemos, como liberdade de expressão, mídia livre – exatamente o que eles querem.

Como vencer uma batalha tão desigual? Não há respostas fáceis. Mas já que prevenir atos bárbaros é praticamente impossível quando o sujeito está disposto a agir sozinho até a morte, parece ser mais viável prevenir que pessoas caiam na conversa. Trabalhar pela inclusão, oferecer oportunidades e apresentar ideais saudáveis aos jovens já seria um bom começo. Porque é bem mais difícil convencer gente que está feliz nessa vida a se explodir para ser feliz em outra. Qualquer que seja o motivo.