fonte: pixabay

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Um estudo recentemente feito no Brasil concluiu que a cada dez trabalhadores no país, três têm síndrome de burnout. Trinta porcento é muita coisa. Porque será que tanta gente tem – ou acha que tem – um problema que até pouco tempo atrás ninguém sabia que existia?

Descrita inicialmente na década de 1970, a síndrome de burnout não é propriamente uma doença, uma vez que ainda não reúne critérios para ser reconhecida cientificamente como tal. No entanto, identificam-se três grandes grupos de sintomas em pessoas nessas condições:

1 – exaustão emocional – a sensação de estar no limite, sem forças, esgotado;

2 – despersonalização – marcada muitas vezes por uma espécie de cinismo, com distanciamento afetivo dos colegas ou das pessoas que dependem de seus cuidados;

3 – ineficácia – sentimento de inutilidade do trabalho, baixa realização pessoal, frustração.

Embora qualquer um possa apresentá-la, há fatores de risco conhecidos: jovens, solteiros, mulheres, pouco suporte social são alguns deles. Trabalhadores idealistas, empolgados, também são mais propensos. Finalmente, locais de trabalho desorganizados, com problemas de comunicação interna, baixa autonomia aos funcionários, com muita pressão, também são fatores de risco.

Quem já atendeu pessoas nessas condições não tem dúvida que burnout existe e é um problema que merece preocupação. Mas quando me deparo com números tão expressivos como os dessa pesquisa outra preocupação me vem à mente: a do exagero nos diagnósticos.

No ensaio A invenção de uma doença (incluído no livro A tinta da melancolia, lançado pela Companhia das Letras), o médico, filósofo e crítico literário Jean Starobinski analisa o caso da nostalgia. A partir do momento em que a expressão foi cunhada, no fim do século XVII, ganhou apelo popular e os “casos de nostalgia” se multiplicaram pela Europa. Marinheiros, soldados, exploradores, várias categorias profissionais passaram a apresentar sintomas desse recém descrito mal. Starobinski nota que “Antes de serem reconhecidos como estados anormais, certas doenças são apenas uma turbulência do curso habitual da vida, da qual ninguém pensa em separá-las. (…) essas doenças só existem como doenças pela atenção que recebem.”

Não é que o burnout não exista, mas se não devemos deixar de diagnosticá-lo em quem dele padece, não podemos também arriscar a confundi-lo com insatisfação profissional. E quanto mais divulgamos o problema, mais ele é reconhecido, mas também maior o risco de confusão. “A rigor, quando estão no auge de sua aceitação, certas palavras chegam a cobrir o que não lhes corresponde”, percebe Starobinski.

Se a analogia é válida, talvez o burnout tenha o mesmo destino da nostalgia. “(…) quando se estabelece um regime militar menos rude, quando um tratamento melhor é reservado aos marinheiros, quando os soldos tornam-se mais substanciais e os castigos corporais são aplicados com menos frequência, as estatísticas dos hospitais militares ingleses e franceses veem diminuir os casos anunciados de nostalgia”. Não que eu acredite que as coisas ficarão mais fáceis no mercado de trabalho. A tendência é sempre piorar: prazos exíguos, mais metas, mais trabalho. Mas o burnout não é causado apenas pelo excesso de pressão (nem tampouco pela “fraqueza” dos trabalhadores). Ele ocorre quando há uma inadequação entre o sujeito e seu meio de vida.

E assim como conseguimos adequar vários aspectos nas carreiras afetadas pela nostalgia – sem que fosse necessário abrir mão da dureza nos soldados ou da resistência nos marinheiros – talvez possamos adequar alguns aspectos do nosso mundo corporativo (mais autonomia, flexibilidade, transparência, por exemplo). Quem sabe com isso as nossas estatísticas também melhorem.

Assim a moda passa e poderemos focar energia em quem realmente está sofrendo.