Já falamos em outras ocasiões que a empatia não é uma característica tipo tudo ou nada, ou se tem ou não. Diferentes pessoas têm diferentes graus de empatia, assim como força física, altura, acuidade visual. Mas mais do que isso, nós temos graus diferentes conforme estamos mais próximos ou mais distantes do objeto de nossa empatia. Poucos se sentem mal em pisar numa formiga, mas matar uma lagartixa já incomoda mais gente. E mesmo que não se incomoda em dar uma vassourada num réptil pode não se sentir à vontade para sacrificar um roedor. Ainda assim, é mais fácil do que matar um cachorro. Acho que deu para entender.

Pensando assim é interessante imaginar se seríamos capazes de sentir empatia por um alienígena. Não um homenzinho verde, como nos filmes B de ficção científica, mas seres absolutamente diferentes de nós, quase irreconhecíveis como seres vivos. Será que essa distância geográfica, morfológica e psicológica seria uma barreira para o compartilhamento de emoções?

Enquanto não fazemos contatos imediatos essa pergunta poderia permanecer sem reposta. Mas existe uma maneira que, se não é exatamente uma viagem interplanetária, dá uma boa ideia do que é visitar outro mundo. E quem sabe conhecer outro ser inteligente.

Quem já teve alguma experiência com mergulho, seja no mar ou em rios e lagoas, seja na profundidade com cilindros de oxigênio ou superficialmente com snorkel, sabe que visitar a vida subaquática parece um pouco com conhecer outro planeta. Desde o meio ambiente que nos circunda até as formas de vida ali presentes, tudo é tão diferente de nossa experiência de vida que na verdade estamos realmente entrando num mundo novo. Se encontrássemos ali um ser inteligente, será que teríamos empatia?

A reposta é sim. Pelo menos de acordo com o mergulhador e filósofo da ciência Peter Godfrey-Smith, que acaba de ter seu livro Outras mentes – O polvo e a origem da consciência publicado no Brasil pela editora Todavia. Australiano entusiasta da vida marinha, Godfrey-Smith mostra que a inteligência surgiu entre os seres vivos de forma independente ao menos duas vezes – uma um nossa linhagem evolutiva e outra na linhagem dos cefalópodes, como polvo, a lula e o choco. Esses animais são tão distantes de nós na árvore da vida, no entanto, e vivem tão longe, nas profundezes desse outro mundo marítimo, que na prática parecem alienígenas. Ainda assim, segundo Godfrey-Smith quem tem o privilégio de olhar nos olhos – ou no olho, para ser mais preciso – desses animais sente imediatamente uma espécie de conexão, como um reconhecimento mútuo que só é possível entre duas formas de vida inteligente. E estabelece-se uma relação empática quase imediata.

Com sua bagagem filosófica e seu conhecimento sobre a vida dessas criaturas o autor nos leva a refletir sobre a evolução dos sistemas nervosos, tecendo considerações sobre o desenvolvimento das funções do cérebro até chegar à inteligência humana e fazendo um contraponto com o sistema nervoso difuso dos polvos – do qual emerge um tipo de senciência diferente, mas não menos poderosa. Para fazer isso o autor escreveu um livro recheado de anedotas sobre o comportamento por vezes jocoso desses animais, além de rigorosas pesquisas dando conta da sua capacidade cognitiva igualada por poucas outras espécies.

Se a empatia é um freio poderoso, que nos impede de causar sofrimento aos outros, quem sabe se tivéssemos mais oportunidade de empatizar com esses seres ao mesmo tempo tão diferentes e tão próximos de nós, não pensaríamos duas vezes antes de continuar destruindo a casa deles.

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Jogos mentais

Seguindo a ideia de indicar alguns jogos de tabuleiro que nos colocam para pensar, nada melhor do que falar hoje sobre o jogo Oceanos, do designer francês Antoine Bauza e lançado no Brasil em 2017 pela Editora Sherlock S.A. Nele cada jogador tem pilota um submarino e tem que coletar o maior número de animais marinhos que conseguir, além de uns baús de tesouro se tiver a chance. A forma de fazer isso é baixar cartas que representam diferentes partes do oceano, que a cada rodada vai ficando mais profundo. No final cada um tem diante de si um belo pedaço do mundo marinho criado por suas cartas, que lhe dará pontos conforme suas conquistas. Mas a aventura é tão interessante e o resultado tão bonito que saber quem ganhou no final das contas é um quase um detalhe.