Duas notícias do último final de semana, aparentemente não relacionadas, se tocam num ponto curioso, e têm importância para a psiquiatria: caiu um satélite da Nasa e caíram as touradas em Barcelona. Vamos por partes.

Os satélites geoestacionários são aqueles que orbitam a Terra na mesma velocidade de rotação do planeta, na região do Equador, ficando dessa maneira sempre sobre o mesmo ponto em relação a nós. A altitude em que eles devem permanecer, pouco mais de 30.000 km de altura, foi pela primeira vez proposta pelo escritor Arthur C. Clarke (aquele de 2001, uma odisseia no espaço) num artigo publicado em 1954 em que ele sugeria que esses satélites artificiais poderiam ser usados para telecomunicações. Por isso até hoje a órbita geoestacionária é também chamada de Órbita Clarke, em sua homenagem.

É esse autor que faz a conexão entre as duas notícias, porque também previu, no livro O fim da infância (publicado um ano antes, em 1953) uma forma de acabarem as touradas. O livro conta a história de naves que chegam à Terra mas, durante décadas, seus pilotos alienígenas não dão as caras. Ainda assim eles resolvem todos os problemas do planeta, da fome à guerra, passando pelo respeito aos animais. Particularmente na questão das touradas eles dão um ultimato, avisando que elas deveriam ser interrompidas imediatamente ou haveria consequências. Os humanos insistem, e no dia do próximo espetáculo, quando o toureiro espeta a primeira espada no lombo do touro, houve-se um horrendo grito de dor coletivo, pois todos os espectadores sentem a dor da estocada ao mesmo tempo. Foi a última.

E aí chegamos à psiquiatria.

O que Clarke descreveu foi uma maneira que os aliens usaram para que as pessoas sentissem a mesma coisa que os touros sentiam. Isso se chama empatia. Essa capacidade de se colocar no lugar do outro, sentindo o que ele sente, é um dos fatores constituintes do caráter. E as teorias atuais sobre a personalidade humana postulam que esta é resultado da interação entre nossos traços de temperamento e o nosso caráter. Não significa, no entanto, que quem é a favor das touradas tem baixa empatia e por isso é mau caráter. Empatia por gente é diferente de empatia por bichos.

Num estudo do começo da década uma pesquisadora avaliou os graus de empatia por humanos e animais em 514 pessoas, por meio de questionários padronizados, e notou que embora houvesse uma certa relação estatística entre eles (quanto maior a empatia por um, maior por outro), tal correlação era pequena. Ou seja, é possível se compadecer do próximo e não se importar com os bichos. O fator que mais aumentava a empatia por animais, não surpreende, era ter (ou já ter tido) algum bicho de estimação (enquanto ter crianças em casa aumentava a empatia por humanos).

Quando vivenciamos algumas coisas, quando sentimos na pele ou convivemos intimamente com determinadas situações, nossa visão de mundo se modifica. O círculo dos que são abarcados por nossa empatia se amplia, de alguma forma moldando nosso caráter. Exemplos como o de Barcelona, onde a população trouxe para a esfera da sua empatia o sofrimento animal, mostram que o também o caráter coletivo e a personalidade de um povo inteiro podem se modificar com o tempo.

ResearchBlogging.org Paul, E. (2000). Empathy with Animals and with Humans: Are they Linked? Anthrozoos: A Multidisciplinary Journal of The Interactions of People & Animals, 13 (4), 194-202 DOI: 10.2752/089279300786999699