Ai, que chega o Natal mas não chega esse segundo turno das eleições. Não sei quanto a você, mas cansei. Enjoei especialmente das redes sociais, onde o diálogo foi totalmente suprimido. Sim, as pessoas deixaram de conversar, pulando da conversa amistosa para o discurso inflamado. Irrita-me especialmente a mania de desqualificar a opinião alheia, como se apenas a estupidez justificasse a discordância. Em primeiro lugar essa é uma postura simplista, por ignorar que a riqueza das motivações humanas vai muito além da estreiteza de raciocínio. Mas pior, é uma postura estúpida ela mesma: se fosse mesmo verdade que os outros só discordam por serem burros, de que adiantaria argumentar?

Assim como nos movimentos terroristas, no entanto, creio que exista uma meia dúzia de líderes fomentando a manada. O grosso da população que embarca nessas campanhas virtuais é simplesmente um bando acéfalo sendo manobrado para lá e para cá. Como os homens-bomba, que nunca são os líderes dos núcleos terroristas. Claro que pode haver propósitos e mesmo racionalidade nos movimentos de massa, como já conversamos em textos como esse e esse. Mas há marqueteiros ocultamente fomentando esses propósitos, explorando os vieses cognitivos que nos tornam todos susceptíveis a manipulações.

Felizmente existe um remédio para isso: conhecimento. Faço abaixo uma lista dos bugs cerebrais (esses tais vieses cognitivos) mais explorados pelo marketing político virtual para que, cientes deles, tentemos nos safar:

Viés intragrupo – é uma tendência que todos temos a tratar melhor as pessoas do nosso grupo, como quer que definamos “nosso grupo” (ex.: nós os blogueiros, nós os PTistas/PSDBistas, nós as mulheres/homens). Com um pouquinho de provocação nesse ambiente polarizado em que estamos vivendo, é fácil transformar quem vota num candidato diferente em inimigo.

Viés de superioridade – quanto mais ignorantes somos num assunto, mais difícil é reconhecer quão pouco sabemos. Com isso, tendemos a superestimar nossas qualidades, subestimando nossa incompetência. Dê uma lida nos fóruns ou comentários nas redes sociais e verá como tem gente falando incoerências absurdas como se fossem especialistas expondo uma tese.

Ilusão de insight assimétrico – é a sensação de que nós conhecemos os outros melhor do que eles nos conhecem, daí o nome de insight (capacidade de autoconhecimento) assimétrico. É por isso que você imagina que conhece muito bem “essas pessoas” que falam as bobagens na internet, enquanto elas “não sabem nada” sobre você.

Viés de homogeneidade extra-grupo – novamente, uma vez definido “nosso grupo” as pessoas vêem muito mais variedade e riqueza de opiniões dentro de seu círculo do que nas pessoas de fora. Fora do grupo enxergamos menos os indivíduos e mais um conjunto homogêneo: “São todos comunistas”, “São todos coxinhas”, “São todos burros”.

Então, da próxima vez que achar que seu amigo virtual é um rematado imbecil, antes de partir para o revide lembre-se de duas coisas: 1) provavelmente existem vieses por trás do que ele está falando; e 2) certamente há vieses por trás de como você está ouvindo.