Você não deve saber disso, mas se quisesse poderia ajudar a polícia na captura de criminosos, igual naqueles seriados investigativos. Se quiser fazer o teste, analise a seguinte cena de crime: uma mulher, de cerca de 20 anos, foi encontrada morta, num beco da periferia, após ser estuprada. O legista diz que ela morreu com uma pancada atrás da cabeça, possivelmente numa queda. Não há ferimentos feitos após a morte. Só sabendo disso, tente responder. Quem cometeu o crime é homem ou mulher? Está em que faixa etária? Tem histórico de comportamento violento antes? Usa álcool?

Aposto que seu relatório bate com o meu (e bateria com o do FBI). A polícia deve concentrar suas buscas num homem, entre 20 e 40 anos, com histórico de violência, eventualmente passagens pela polícia. Tem hábito de beber e deve ter bebido no dia do crime. Ele tem grande probabilidade de estar desempregado ou ter um trabalho informal ou com baixa remuneração. Provavelmente está enfrentando um conflito familiar. E é emocionalmente inseguro.

Bem-vindo ao universo do profiling, a técnica de traçar o perfil de um criminoso apenas conhecendo as características do crime.

Embora estejamos sempre buscando padrões em tudo o que vemos, foi só nos anos 1970 que a iniciou-se uma tentativa formal de sistematização das características de criminosos violentos. É uma história interessante, retratada na série Mindhunter, mais recente sucesso do Netflix. Dois agentes do FBI se unem a uma cientista para estudar o comportamento de assassinos múltiplos, que eles passam a chamar de serial killers. O seriado explora várias situações de tensão, entre os bandidos e os mocinhos, entre o policial jovem e o experiente, entre o raciocínio acadêmico e o prático, entre seguir a intuição ou seguir os protocolos. Mas não o faz de maneira binária, colocando barreiras claras entre esses polos – ao contrário, essas margens são constantemente borradas, como acontece na vida real.

O fato de você mesmo ter conseguido traçar um perfil criminal mesmo sem ser agente do FBI revela ao mesmo tempo os alcances e limites do que esses pioneiros realizaram. Seu trabalho foi fundamental para que se estruturasse uma base de conhecimentos estatísticos sobre o crime que fosse além da mera intuição. Serial killers são quase sempre homens brancos. Estupradores são quase sempre homens. Assaltantes são quase sempre jovens. Essas informações passaram a fazer diferença real no trabalho policial. Mas o charme termina aí, na frieza dos números – e por isso qualquer um que tenha acesso a uma boa base de dados pode ser um profiler. O resto do trabalho não é muito diferente da astrologia de revista popular, na qual são apresentados dados genéricos, que se aplicariam a qualquer um. “Emocionalmente inseguro”, “alguém com violência latente”, “apresentando histórico de conflitos familiares” são informações que, misturadas a dados objetivos como “homem”, “solteiro”, “com ficha policial”, transmitem a impressão de uma descrição acurada. Mas não fazem diferença. Por isso que agentes profissionais treinados na verdade não se saem muito melhor do que pessoas sem qualquer treinamento quando pesquisas objetivas são feitas.

Não creio que isso tire a importância do trabalho. É importante para a polícia saber se deve procurar homens ou mulheres, jovens ou velhos, aqui ou acolá, mesmo que essas informações não dependam de um expert com ares de mediunidade. Essa dualidade entre ser subjetivo ou objetivo, simples ou complexo, útil ou inútil, não tem fronteiras bem demarcadas. Como na série Mindhunter. Como na vida.

Snook B, Eastwood J, Gendreau P, GogginC, Cullen RM. Taking Stock of Criminal Profiling A Narrative Review and Meta-Analysis. Criminal Justice and Behavior. 34 (4),  437-453.

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Leitura mental

Um dos maiores golpes na nossa arrogância é quando descobrimos que em muitas instâncias nossas decisões são piores do que aquelas feitas por máquinas, apenas com base em números e dados. Uma vez que absorvemos o golpe, no entanto, temos muito a ganhar com os algoritmos, que podem não só nos poupar trabalho como fazer determinados trabalhos melhor do que nós. Mais do que isso, as árvores de decisão passo-a-passo ajudam-nos a compreender o funcionamento de vários fenômenos no mundo – e em nossa mente. Essa é a proposta do livro Algoritmos para viver – a ciência exata das decisões humanas, do psicólogo e cientista cognitivo Tom Griffiths e do jornalista e escritor Brian Christian, lançado pela Companhia das letras. Investigando desde a história da ciência por trás do desenvolvimento dos algoritmos até nossos mecanismo cognitivos por trás de sua eficácia, os autores jogam luz sobre o processo decisório humano, e ainda nos ajudam a otimizar o processo.