Com certeza já aconteceu com você. Num momento de grande generosidade, maturidade ou altruísmo, você está prestes a fazer algo importante para alguém. É uma atitude espontânea – você mesmo detectou a necessidade e, às custas de seu próprio esforço, fará aquilo pelo próximo. Mas no momento imediatamente antes de começar alguém aparece e te pede para fazer aquilo. Ou, pior ainda, surge uma autoridade e dá uma ordem, transformando em um gesto de mera obediência o que antes seria um gesto de grandeza. O jeito mais rápido de roubar o altruísmo de uma atitude é torná-la obrigatória.

Penso nisso ao ler as notícias de que as taxas de vacinação vêm despencando pelo Brasil. A repórter Lígia Formenti levantou que desde o início da campanha da vacina da gripe apenas 77,6% da população prioritária foi vacinada. Na maior cidade do país, a capital paulista, nem metade das gestantes e crianças entre seis meses e cinco anos compareceram aos postos. Na primeira metade desse ano já morreu por conta de gripe o dobro de gente do ano passado todo.

Isso vem acontecendo com todas as vacinas. A vacinação contra a poliomielite, que alcançava quase 100% das crianças no início do século 21, hoje não chega a 80% no território nacional. No estado de São Paulo não alcança sequer 70%.

Vacinação é obrigatória mas é também um ato coletivo. Para que uma doença sobreviva é preciso que as pessoas estejam susceptíveis a ela. Pense num vírus qualquer – sarampo, por exemplo. Ele infecta uma pessoa, o sistema imunológico reage e ele é eliminado depois de alguma luta. Se nesse meio tempo não encontrar ninguém para infectar seu ciclo acaba aí. Mas se consegue se instalar no corpo de outra pessoa ciclo se reinicia. Por isso é mais difícil erradicar doenças que não infectem apenas o homem. O vírus da febre amarela sempre pode encontrar uns macaquinho dando sopa para garantir sua sobrevivência. Já doenças sem tais hospedeiros alternativos podem ser totalmente erradicadas, como foi o caso da varíola.

Nós não nos vacinamos apenas para nossa segurança – a imunidade oferecida pelos medicamentos não é de 100%. Para que sejam eficazes é preciso que o maior número possível de pessoas esteja o mais protegidas o possível. Com isso haverá menos micro-organismos circulando e menos chance de adoecimento mesmo com a eficácia parcial da imunização. Só pensando na coletividade somos beneficiados individualmente. Vale a pena ser altruísta, mesmo que por egoísmo.

Será que o fato de ser obrigatório é que desestimula as pessoas? Com o sucesso dos programas de imunização dos últimos anos talvez elas acreditem que estão protegidas e resolvam dar de ombros para as recomendações oficiais. Seria como o adolescente, que apesar de saber da relevância dos conselhos do pai, age contrariamente só para não ser obediente. Ou o marido que, após discutir com a mulher mesmo estando errado, relutar em fazer o que ela queria. Se cede, não o faz sem resmungar: “Eu vou fazer, mas é só porque eu quero, não porque você está falando”.

No fundo eu torço para que seja “só” isso. Se for, a gente resolve com três dias de notícias consecutivas sobre as altas taxas de mortalidade, eventualmente temperadas com uma ameça de escassez de medicamentos. (A correria pela vacina da febre amarela está aí para provar). Pior mesmo é se o movimento antivacina, tão pernicioso em alguns países desenvolvidos que levou à ocorrência de surtos de doenças até então raras, chegue ao Brasil com força.

Meu desespero é porque a única prevenção para essa praga é a educação. E esse remédio no Brasil nem o governo oferece nem as pessoas querem tomar.

 

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Leitura mental

A gente raramente fala a verdade em pesquisas sobre temas realmente importantes. Por exemplo: se perguntassem o motivo de os pais não levarem os filhos para vacinar, o que será que eles diriam? “Ah, a gente resolveu arriscar.” Duvido. Mas atualmente existe um lugar onde todo mundo fala a verdade: a caixa de buscas do Google. Com uma capacidade única de navegar pelo “big data”, o cientistas  Seth Stephens-Davidowitz mostra que Todo mundo mente, título de seu livro recém lançado no Brasil (Alta Books, 2018). Transformando dados em informação o autor mostra como o racismo ainda é um problema muito maior do que o declarado nos EUA (explicando a eleição do Trump); como uma crise econômica aumenta a violência doméstica contra crianças; até quais as principais fantasias sexuais das pessoas. Interrogando os rastros que deixamos pela internet Stephens-Davidowitz extrai confissões que não faríamos nem no leito de morte. Põe assim um gigantesco espelho diante nós, no qual, com perdão do trocadilho, vale a pena  refletir.