Dia 10 de outubro é o Dia Mundial da Saúde Mental, e eu só queria falar disso. Meu objetivo era falar de atividade física, dieta adequada, higiene do sono, meditação, essas atitudes individuais que a gente sabe que ajudam no bem estar emocional no manejo de sintomas depressivos, ansiosos, sobretudo leves (maioria dos casos). Só ia falar disso, não queria, de novo, entrar na política. Sério. Mas então eu fui consultar o manual da Organização Mundial de Saúde para prevenção de transtornos mentais. E para meu azar percebi que o manual vai bem além da dimensão individual, recomendando – vamos lá – políticas públicas para promoção da saúde mental.

Existem fatores de risco para e de proteção contra o adoecimento psíquico, que podem ser gerais (aumentando ou diminuindo a chance de várias doenças ao mesmo tempo) ou específicos para algum problema. Além disso eles podem ser individuais, familiares, sociais, econômicos ou ambientais. Se insistimos com as pessoas para irem dormir mais cedo, frequentarem academia, reduzirem o açúcar, algumas serão beneficiadas – aquelas, dentre as alcançadas pela mensagem, que conseguirem por algumas ações em prática. Já quando atuamos nos fatores macro o alcance é muito maior e muitas vezes independente da adesão individual.

Tomemos a questão habitacional, por exemplo. A melhoria nas condições de moradia é um fator comprovado de melhora da saúde física e mental, reduzindo o desgaste emocional. Se nos voltarmos para a segurança alimentar, então, os resultados são ainda mais significativos – intervenções para adequar o aporte nutricional das crianças comprovadamente promove o desenvolvimento cognitivo saudável, melhora dos índices de educação e redução das doenças mentais. Simplesmente sair da pobreza já faz diferença – o aumento de renda familiar está diretamente relacionado à melhoria das condições psicológicas das pessoas.

No plano educacional as oportunidades são enormes. A primeira infância é crucial para a saúde mental, e os estágios seguintes do desenvolvimento são vulneráveis a fatores de risco importantes como violência doméstica, negligência paterna, bullying. Há abundantes evidências de que programas de acompanhamento de mulheres ao longo da gestação e no pós-parto são positivas para a saúde mental dos pais e dos filhos, com desenvolvimento de vínculos mais sadios e também redução de risco de doenças físicas e mentais. Intervenções nas escolas, por exemplo, com programas de desenvolvimento de habilidades para a vida (manejar estresse, lidar com emoções, resolução de problemas), são o que há de mais eficaz para prevenir o uso de drogas, fator de alto risco para vários transtornos.

Por falar nisso, com relação ao abuso de substâncias, é sabido que as dependências químicas de álcool e tabaco respondem por um enorme prejuízo individual e social, para ficar só nas drogas lícitas. Políticas de taxação, propaganda e acesso a essas substâncias são capazes de reduzir o uso e abuso sem que elas precisem ser banidas – aumentar 10% em impostos de álcool reduz 8% do seu uso em países ricos, e provavelmente mais em países pobres, com consequências positivas em termos de dependência, agressividade, acidentes de trânsito, complicações clínicas. Lembrando que o controle da horários para uso de álcool em locais públicos tem expressivos resultados em redução da violência urbana.

E mesmo que demoremos para sair da crise econômica em que nos encontramos, responsável pela alta taxa de desemprego nacional, há medidas já testadas para evitar a depressão entre as pessoas desempregadas. Programas de baixo custo e fáceis de implementar, baseados em treino de habilidades para busca de empregos e técnicas motivacionais e de superação de contratempos, elevam as taxas de reinserção no mercado de trabalho e previnem o estresse do desemprego, bem como a depressão decorrente. Eles ajudam a evitar o crescimento dos desalentados, como agora o IBGE chama quem desistiu de procurar emprego.

Quais as propostas dos nossos candidatos a governadores e a presidente sobre esses temas? Que eu lembre esses pontos nunca foram tratados, nem mesmo de forma genérica e superficial, em debates ou entrevistas. E aposto um frasco de rivotril como não serão citados até o segundo turno.

Mas eu não queria mesmo falar de política. Recomendo então que todos pratiquem atividade física, meditem, durmam bem e comam mais frutas, legumes e verduras. É o que temos para hoje.

 

World Health Organization. (‎2004)‎. Prevention of mental disorders : effective interventions and policy options : summary report / a report of the World Health Organization Dept. of Mental Health and Substance Abuse ; in collaboration with the Prevention Research Centre of the Universities of Nijmegen and Maastricht. Geneva : World Health Organization. http://www.who.int/iris/handle/10665/43027

 

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Leitura mental

Uma das técnicas de psicoterapia mais estudadas para tratamento dos transtornos mentais é a terapia cognitivo-comportamental (TCC). Não necessariamente por ser melhor do que as outras terapias, mas talvez por ser muito bem estruturada, com parâmetros que são claros e verificáveis. Isso a torna excelente para ser testada cientificamente. Mas não só: facilita também sua compreensão pelo leigo, que consegue aplicar várias de suas técnicas por conta própria com bons resultados. Essa é a ideia do Exercícios de Terapia Cognitivo-comportamental – Para Leigos, lançado esse ano pela Alta Books. Os autores Rhena Branch e Rob Willson apresentam os fundamentos da TCC, ensinado o leitor como ela pode ser aplicada e guiando-o através de exercícios que de fato ajudam a identificar padrões de pensamentos distorcidos, pensamentos automáticos negativos e tantas outras armadilhas mentais que trazem impacto negativo para nossa saúde mental.