Não estou bem certo, mas acho que é no musical Todos dizem eu te amo que Woody Allen aconselha o filho: se um relacionamento tem que terminar, é melhor você deixar do que ser deixado. Porque quem deixa, deixa. E quem é deixado, é deixado.

Desconsiderando o fato de ser um conselho meio egoísta vindo de um pai neurótico, a verdade é que por mais que o término de um relacionamento possa ser ruim, o fato de ser rejeitado pode ser profundamente doloroso. Fisicamente doloroso.

Nos mais diversos idiomas a linguagem humana retrata a relação entre as dores físicas e emocionais. A dor no coração, o nó na garganta, o aperto no peito, são expressões que mostram como sentimos no corpo reflexos do que nos passa na alma. (O que por si só já deveria bastar  para colocar em dúvida essa questionável divisão entre corpo e alma). Mas com o advento da moderna tecnologia de neuroimagem os cientistas começaram a notar que de fato o sofrimento do corpo e da mente compartilhavam determinadas regiões cerebrais, como a porção anterior de uma região chamada ínsula. Essa área é responsável pela consciência afetiva, e acreditava-se que ela era ativada durante episódios dolorosos, dando o caráter emocionalmente aversivo da dor. No começo da década de 2010, no entanto, descobriu-se que o contrário também ocorria: a porção posterior da ínsula, responsável pelo componente físico, sensorial da experiência dolorosa, também era ativado caso a dor emocional fosse forte o suficiente.

Para chegar a essa conclusão, os cientistas recrutaram 40 pessoas que tinham recentemente sido deixadas e as submeteram a condições de dor física – colocando seus braços em água quente – ou emocional – apresentando fotos do “ex” acompanhadas de frases que as faziam pensar especificamente na experiência da rejeição. Enquanto essa tortura acontecia os voluntários realizavam exames de Ressonância Magnética Funcional, que mostra a atividade do cérebro. Os resultados mostraram uma superposição entre as regiões ativadas pelas lembranças dolorosas e pela quase queimadura, tanto nas áreas relacionadas à afetividade como naquelas responsáveis pela sensação física de dor. Ou seja, não só a dor física se reflete nas emoções, mas também a dor emocional é fisicamente experimentada. É por isso que às vezes parece que a alma dói. Porque dói mesmo.

Quando não passam logo, tanto a dor física como a emocional podem ser sinal de doenças. Mas assim como a dor física pode ser um alarme que nos avisa de um perigo, também a dor da alma pode ser um alerta para situações que não estão nos fazendo bem.

De um jeito ou de outro, sempre vale pena ouvir o que a dor tem a nos dizer.

 

Ethan Kross, Marc G. Berman, Walter Mischel, Edward E. Smith, Tor D. Wager. Social rejection shares somatosensory representations with physical pain. Proc Natl Acad Sci U S A. 2011 Apr 12;108(15):6270-5

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Leitura mental

Embora de maneira geral seja associada a robôs e naves espaciais, a ficção científica pode ser uma forma genial de se refletir sobre questões profundas da natureza humana – como indivíduos e como espécie. Em Solaris, lançado esse ano pela editora Aleph, o escritor polonês Stanislaw Lem conta uma história que se passa num planeta coberto por um gigantesco oceano, aparentemente um ser vivo dotado de consciência. Há gerações os humanos são enviados até lá para estudá-lo, mas muitos morrem ou enlouquecem sob sua influência. O narrador é Kris Kelvin, psicólogo encarregado de estudar os últimos cientistas no planeta, ambos sofrendo de alucinações. Lem usa os desafios diante desse absoluto desconhecido para fazer pensar sobre motivações, medos, limites e capacidades humanas, e o tempo todo temos que resistir à tentação de achar explicações finais. Como diz o narrador, “O ser humano sempre cria hipóteses, mesmo quando é precavido e mesmo quando não sabe disso”. Mas são os vãos do desconhecido que impulsionam a exploração de Solaris, seja pelos astronautas, seja pelos leitores.